Assim, achava meio de me esquivar sempre que sahiam, o que era raro, pretextando estudos que nunca fazia.
De mêses a mêses, a visita ao consul inglês era o unico parentesis de luz na tristeza da minha vida. Tinha umas filhas encantadoras,{122} algumas já senhoras, e, entre ellas, a Maud era muito gentil para mim, consolando-me e alegrando-me, nas poucas vezes em que nos avistavamos, das muitas horas de incomportavel tedio que passava naquella casa.
Maud era muito inglêsa na sua educação para censurar uma pessôa das relações da casa, mas o simples sorriso dos seus labios finos, a ligeira caricia dos seus olhos puros, era quanto bastava para me encher o coração de reconhecimento e têr na sua amizade toda a confiança.
Pobre Maud! Levada pelo destino para longe, obrigada a ganhar a sua vida pela morte dum pai afétuoso e inteligente, em que país, em que terra, em que familia, o seu sorriso honesto, a sua graça séria, serão consolo e júbilo para alguma criança infeliz, como eu era?!
Outra qualquer pessôa, por menos melindrosa e suscétivel que fôsse, não se sentiria feliz num meio em que tudo era violento e desagradavel.
A cubana ralhava por tudo, nada estava feito a seu gosto, de manhã á noite lamentava têr vindo para um país de que dizia indelicadamente, grosseirônamente, os ultimos horrores:—a vida era carissima, os criados eram mandriões e inhabeis, era preciso olhar por{123} tudo, vêr tudo, desde a roupa da lavadeira até á limpeza da casa...
Tornava desgraçada toda a gente, e não consentia que ninguem se considerasse infeliz—possuindo a rara fortuna de a têr ao lado!
Ao meu pobre tio impunha uma felicidade que elle estava longe, bem longe, de sentir. Não podia formular uma opinião sua; era obrigado a confirmar tudo quanto ella dizia, e ainda dizer-se o mais ditoso dos maridos e fazer elogios á sua alta inteligencia, bom-senso e sábia economia.
Meu pobre tio! Verdadeiramente, aquella pressão moral em que conservava o bom do velho, revoltava-me. Nunca pensei em impôr a minha vontade a ninguem, e tudo quanto seja coagir a dos outros, tirar ao sêr humano a liberdade de sentir e pensar por si mesmo, exaspera-me como violencia contra mim propria exercida.
Depois, a pequena tinha a bela qualidade de espiar e ir contar-lhe tudo quanto se dizia e fazia em casa, e por muitas vezes o que nem sequer se sonhava dizer ou fazer. Um amôr de criança!