As criadas entravam e sahiam com uma velocidade de comboio expresso.
Quando mal humorada, dava-lhes bofetada e descompostura que as fazia fugir espavoridas;{124} mas, se por outro lado lhe désse na cabeça, enchia-as de presentes e favôres. Era conforme ellas sabiam ou não lisongear-lhe a vaidade.
A última que lá conheci, talvez a mais velhaca de todas, essa soube cativá-la, e fazia quanto queria sem que ouvisse uma simples reprimenda. Adiante falarei na menina Eulalia, que entrou para muito na minha vida.
Meu tio é que escrevia para casa e lá dizia dos meus adiantamentos, que, francamente, não eram nenhuns. Ás noticias dos meus pais, tão carinhosas e prolixas, eu respondia com aquellas cartas incolôres que todas as crianças prisioneiras nos internatos, ou onde quer que lhes pônham sentinela ao pensamento, têm escrito. Cartas em que nem um vislumbre da alma infantil entreluz; cartas feitas só de palavras ouvidas, e que são o primeiro passo para a mentira social a que nos querem sujeitar, como a cães sábios sob o chicote domesticador e o mêdo... A criança, que sabe que as suas cartas serão maculadas pelos olhares indiferentes, e os seus verdadeiros sentimentos procurados nas linhas em branco da sua pobre correspondencia, perde a sinceridade, não se expande com lisura, não diz o que sente...{125}
Os bilhetes que metia no mesmo sobrescrito de meu tio eram frios, pouco mais ou menos o que me diziam que era dever escrever:—que estava bem, que era bem tratada, que me sentia feliz... Nada do que, em verdade, eu teria desejo de dizer!
É certo que a minha alma irritada julgava-se ofendida pelo desamôr com que me tinham expulso de casa para me atirar para o poder daquella mulher, que para mim resumia tudo quanto eu podia odiar mais.
Nesse tempo não gostava de ninguem—nem de mim mesma. Era injusta, mas era humana. O animal criado em toda a expansão da sua vida material e forte, não se subjuga sem rebelião, não se obriga sem muito custo a entrar no regimen de servidões a que se convencionou chamar deveres sociais.
Assim, quando meu pai empreendia a longa viagem da aldeia á capital para me vêr, eu não correspondia de modo algum ao seu aféto e interesse.
Sem compreender o enorme sacrificio que faziam para me dotarem com uma educação que supunham sêr um precioso instrumento de felicidade para toda a minha vida, achava que era desamôr o que me consagravam e tão sómente desejo de me vêrem longe da sua casa, porque o meu feitio moral os desconcertara{126} e lhes era talvez odienta a minha presença...
Ás perguntas insistentes que me fazia, vendo-me tão delgadinha e triste, o meu orgulho fazia-me responder com sistematica negativa.