Era muito instruida, uma pequena e encantadora sábiasinha, que sorria, maternalmente conselheira, da minha supina ignorancia.
Já quasi mulher, um tudo-nada garrida, vestindo divinamente os lindos vestidos da sua escôlha, ella materialisou no meu espirito o ideal duma santa ou dum anjo salvador, que Deus tivesse mandado ao meu purgatorio.
Porque... esquecia-me mais esta: a mulher de meu tio era protestante, mas da última hora. Com todo o fanatismo dos neófitos e a sua terrivel mania de impôr as suas ideias e de prégar as suas convicções, todos os dias me ensinava e explicava o evangelho, á sua{131} moda, isto é: analisando-o e adaptando-o á vida quotidiana, com uma banalidade desesperadora.
Na minha aldeia nunca ouvira falar em evangelho senão no latim do Padre Zé, á missa, quando a minha mãe nos dava a consolação de nos pôrmos de pé. Mas estava acostumada a conversar com o Anjo da guarda como se fosse um irmão, e no rosto delicado das esbeltas Santas góticas, que ornavam as paredes da nossa velha igreja, lia enlevadoras historias que ellas me sorriam...
Arrancar a uma pobre alma de meridional, apaixonada pela côr e pela fórma, o olôr dos incensos subindo em dolentes preces para um céo recamado de oiro e pedrarias, onde lindas crianças cantam e tocam flautas e guitarras maravilhosas, onde florescem jardins ideais, e correm fontes inesgotaveis de perfumes suaves; tirar-lhe a ilusão magnifica duma vida embalada pela esperança do milagre, e dar-lhe em troca a frieza do raciocinio, a clara e positiva significação das palavras, a simplicidade da fórma despida do encanto da arte, será por certo de muito bons resultados futuros—e foi-o para o meu espirito, que se habituou ao rigoroso cumprimento da verdade—mas nesse tempo constituia um sacrificio a mais a juntar aos muitos outros.{132}
Pois a Mariquinhas encarnou para a minha imaginação mortificada, o anjo meu companheiro e protétor. Pela sua mão seguiria por sobre a fragil ponte que representa o dificil caminho da virtude, nas imagens popularisadas pela oleografia barata, em que o guarda angelico guia uma criancinha, com a sua mala de viagem a tiracolo, pela áspera senda do bem...
Fôram os dias bons da minha permanencia naquella casa.
Não sei como a terrivel cubana se não opôs á nossa convivencia, embora distanciada, apenas entretida pelas fugitivas palestras trocadas a mêdo por sobre a sebe que as minhas trepadeiras iam vestindo e matisando com uma floração polícroma.
Lembro-me agora que a Mariquinhas, com a sua viva inteligencia cultivada no convivio da sociedade, compreendera desde logo de quanta vaidade e orgulho se enchia a enorme criatura, e sabia lisongeá-la com leves delicadezas, das quais eu nem sequer compreendia o alcance, na minha inteireza selvagem.
Hôje, era uma linda flôr mandada pela pequena para a mamã pôr no seu logar, á mêsa; ámanhã, noticias lidas por acaso nos jornais sobre coisas passadas em Inglaterra ou nos Estados-Unidos; depois, uma corréta{133} atenção aos discursos que lhes algaraviava, quando acontecia vê-la da janela.