Com tão pouco, a Mariquinhas vencera a resistencia feroz daquella fortaleza e achava-se senhora da situação. Nunca pensei que eu teria, talvez, conseguido o mesmo se o orgulho—que é uma virtude que nos nobilita, mas torna dificil a vida social—não me fizesse olhar com desprezo para esses processos que me punham numa dependencia moral que me irritava. Decididamente a Mariquinhas era muito melhor politica; onde o meu temperamento voluntarioso punha energia revoltosa, a doçura do seu espirito, tão levemente ironico quanto profundamente conhecedor das fraquezas alheias, usava o suborno da lisonja, que a todos conquista e agrada.
Apesar das familias não têrem nunca encetado relações que as tornassem do mesmo convivio,—porque a mãe da Mariquinhas detestava a espanhola, como lhe chamava—conseguira a criança, com as suas blandicias de lisboêta amavel, que me deixassem ir passar algumas tardes a sua casa.
Era um banho dulcissimo de calma para o meu espirito, que fermentava em sublevações concentradas mas nem por isso menos violentas.{134}
A D. Emilia era uma destas almas bôas e sãs, tal qual a da minha mãe, modestas no cumprimento religioso duma existencia que nunca teve dúvidas nem sobresaltos de consciencia. O seu espirito era simples, e os seus olhos diziam na clara expressão o que ás vezes os labios não se atreviam a proferir, com receio de ir infelicitar os outros com uma observação menos resignada... ou mais verdadeira.
Conversar com a bonissima criatura era abrir o coração e deixar correr as palavras livremente, numa fluencia de ribeira múrmura e limpida deslisando por campo sem obstaculos; ouvi-la era escutar o carinhoso conselho duma rara alma humana que nunca se tinha poluido numa mentira.
Ah, como o meu coração se aliviou da tristeza imensa em que se afundava, contando-lhe a minha vida; e como ao contar-lha precisei verdadeiramente o mal de viver, que me vencera e arrastava para o desespero! E como ao escutar-lhe a palavra mansa e insinuante, compreendi, e melhor apreciei, a modesta e nobre missão da minha pobre mamã!...
O pai da Mariquinhas parecia viver só para tornar felizes as duas criaturas, que eram todo o seu cuidado e amôr. Aposentado do{135} seu logar de lente duma escola superior, passava os dias estudando e lendo no seu gabinete cheio de livros, que já lhe invadiam a secretária, que a filha todas as manhãs lhe ia enflorar com lindos ramilhetes que ella mesma cortava e ageitava nas jarras.
Que suave e dulcida existencia! E como a vida corria sem se sentir entre aquellas três criaturas, tão estreitamente unidas pelo amôr, sem violencias nem coáções... Que diferença da nossa casa, onde a mulher de meu tio queria impôr não só a sua autoridade absoluta, o que já seria abominavel, como os seus gostos e sentir e toda a sua maneira particularissima de vêr as coisas!
Aquella atmosfera pacificadora fazia-me bem, domesticava-me o coração que se tinha tornado feroz no odio e na desconfiança.
A unica receita eficaz para se sêr amado sinceramente é amar; era a que usavam os meus amigos, e por isso venceram a minha rudeza e fizeram com que os amasse com todo o entusiasmo da minha alma apaixonada.