Que a Mariquinhas e o Chico esboçassem já então um destes idilios deliciosos de infantilidade que são ás vezes o princípio de grandes e puros afétos, que se enroscam na alma e influem para sempre na sua modalidade, pode sêr, mas que eu não compreendia nada dessas precocidades sentimentais, é tambem certo!
Foi nesta altura da minha vida que entrou para criada da nossa casa a menina Eulalia. Não sei de que terra ignorada de provincia teria vindo aquelle especimen bem acabado da criada alfacinha, mas é certo que ella já trazia o cunho particular, os vicios e o geito dessa peste que entra nas casas como a traça na roupa. Que diferença entre essas criaturas falsas, interesseiras e intrigantes e as nossas criadas da provincia, á moda antiga, um pouco{140} boçais e confiadas, é certo, vivendo com os amos numa certa igualdade familiar, mas tão fieis, tão amigas e carinhosas para nós! A Maria Augusta, coitada, com quanta ternura eu pensava na bôa mulher que nos criara com extremos de mãe, e tanto chorara a ultima vez que me fôra vestir, para a jornada!
E a cosinheira solícita e desembaraçada, que nunca esquecia de meter na fornada semanal do pão de milho, para os criados, os bôlos para os meninos?! E a paquêta, a pequena criada que se vai avesando de criança aos usos da casa, e é, ás vezes, no futuro, a melhor de todas?! E a de fóra, encarregada da criação e dos porcos, que nos trazia abadas de fruta quando ia ás propriedades distantes?! E os criados, desde o rapaz dos recados ao feitôr, como toda essa gente era sincera julgando-se na sua propria casa—dizendo as nossas casas, as nossas matas, as nossas rendas!...
Quanto melhores, apesar dos defeitos de educação que lhes notava a mulher de meu tio, do que essa turba avarenta e mal educada que vi desfilar por sua casa durante os quatro interminaveis anos que lá vivi!
Eulalia era baixa e magra, as faces manchadas, os dentes postiços, os cabelos frisados,{141} e uns olhos pequenos e inquietos que nunca se fixavam em nós com franqueza.
Não gostava della intimamente, mas acostumara-me já a nada mostrar dos meus sentimentos e nada, pois, lhe disse que a fizesse supôr tal antipatia.
No entanto, ella compreendeu desde logo que eu era pouco na casa, e ria-se de mim com a Lóló (o nome familiar da pequena de meu tio), que enchia de falsas caricias. Tinha grandes demonstrações de aféto pela sua rica senhora, a quem lisonjeava para despertar a sua generosidade, que percebera existir quando gostava das criadas, o que não era vulgar.
Com o meu tio, cada vez mais doente e enfraquecido, ninguem se dava mal.
Portanto, ia a menina Eulalia sêr a primeira que por lá se conservasse mais de um mês ou dois.
Era mais uma criatura hostil a seguir os meus passos, mais uma bôca a denegrir o meu procedimento, mais uns olhos a espiarem-me, e um pensamento álerta que se exerceria contra mim.