Apesar disso, as minhas relações com a Mariquinhas não afrouxavam, e a mulher de meu tio não se opunha a ellas porque encontrara emfim o meio infalivel de domar o meu{142} orgulho e fazer-me docil e estudiosa. Á simples ameaça de me prohibirem esses momentos de desafogo, não havia nada que eu não fizesse! Se era a unica felicidade para o meu coração—e o sêr humano tem della tanta necessidade! Nem os professores já se queixavam de mim, que a Mariquinhas e o Chico tinham-me tornado quasi estudiosa, com os seus conselhos e com os seus exemplos.

O tempo nunca pára e por peor que estejâmos corre do mesmo modo veloz, ainda que tal nos não pareça, dobradas como são as horas de amargura. Já ia para quatro anos que ali estava e, relativamente, os últimos dois, desde que conhecera a Mariquinhas, tinham sido de relevado encanto para mim. Não pensava nem queria pensar no que me rodeava, para só vêr os meus amigos e com elles viver, mesmo quando ausente.

Foi então, quando nós iamos já contar dezeseis anos, que a Mariquinhas entrou a adoecer.

A toda a hora se sentia mal. A mãe, muito inquieta mas sem o querer mostrar, envolvia-a de carinhos, procurava satisfazer-lhe todos os desejos. Enchia-se de apreensões, e toda a sua alma se enregelava e tremia num pavôr de dôres já sentidas a prognosticarem amarguras ainda inéditas.{143}

Pobre mãe! Era bem certo que a Mariquinhas lhe daria, e breve, o maior desgosto da sua vida.

O outôno vinha chegando, duma estranha doçura esse ano, a infiltrar-se na alma, todo doirado nos poentes tepidos a esmorecerem em lentas agonias, como nas arvores que se cobriam do oiro das folhas mortas para mais depressa se despirem e esperarem arrepiadas e friorentas o triste inverno.

O jardim constelava-se de crisântemos, que na nossa terra têm o sugestivo nome de despedidas de verão, brancos como flocos de neve, rubros, amarelos, dum rôxo desmaiado como leves aguadas, outros de côres intensas, mesclados e rajados, variando na côr como na fórma, desde o desgrenhado da cabeleira bohemia ao recorte regular da máquina de fazer flôres de papel.

Debaixo do caramanchão, que tambem se ia despindo, primeiro das flôres, depois das folhas, a Mariquinhas, quasi deitada na cadeira de verga que a mãe lhe almofadava desveladamente, olhava melancolica os seus queridos crisântemos, que todas as manhãs desabrochavam de novo e vinham preencher a falta dos que se cortavam ou pendiam emurchecidos.

Com as suas mãos translucidas, que eram uma das suas grandes vaidades, entretinha-se{144} por vezes a juntar em ramilhete as flôres que eu lhe ia levando. E mandava-me ir dispô-las no gabinete do pai, como outrora ella fazia. Mas o triste velho é que não lhe achava o mesmo encanto, e com a cabeça entre os braços cruzados sobre a secretária, mal me via desatava num soluçar de criança, que me compungia extraordinariamente.

Ás vezes mandava-mas cortar duma só côr, e juntando-as num ramo, dizia-me, sorrindo enigmatica: