—«Vês? Gosto mais assim. As brancas junto das outras pareciam-me ainda mais pálidas. É como os doentes ao pé dos que têm saude.
Tinha então manias esquisitas, caprichos inconcebiveis, maus humôres, que me faziam sofrer enormemente. Impacientava-se quando me via chorar com as suas maldades, mas chamava-me dahi a pouco para me beijar, numa solicitude, numa súplica, de quem deseja sêr perdoado.
Ás tardes, quando o Chico recolhia depois das aulas, pedia-lhe para que fôsse lêr-lhe historias, lindos romances, que elle ia escolher á estante clara, de érable, do seu lindo quarto de donzela.
Foi assim que ouvi, como o decorrer dum sonho delicioso, aquelles adoraveis romances{145} de Julio Diniz, que ficaram sagrados como livro de rezas para o meu coração de rapariga.
Depois, nem já mesmo isso; ás horas a que costumava entrar o Chico, mandava-me embora, com uma crueldade, um desamôr, que me enchia de desespero e me fazia chorar horas seguidas, com a cabeça enterrada nas almofadas da minha cama para que ninguem suspeitasse do motivo da minha pena.
Voltavam todos os meus desesperos e tristezas como bando de corvos, por um pouco afugentados pela alegria.
Dizia adeus ás tardes joviais de recreio, adeus a tudo quanto me tinha consolado de viver!...
Algumas vezes, mas sempre quando não estava o Chico, a Mariquinhas mandava-me chamar com muito empenho. Ia logo, correndo alvoroçada, e encontrava-a então carinhosa como nunca, num redobramento de aféto e ternura que me fazia esquecer todos os agravos.
Era então a Mariquinhas doutro tempo, a bôa fada que transformara a minha dura existencia, o dôce e querido anjo da guarda dos meus sonhos.
Uma tarde, em que estava melhor, olhou fixamente para mim, com um estranho olhar{146} que nunca lhe vira, e disse-me, como quem faz uma descoberta: