—«Ó Raquel, tu és bonita, sabes?

Eu ri-me francamente, como quem nunca ouvira tal nem se preocupara com o assunto.

—«Não... sério!—acrescentou convincente—tens uma cara estranha, que não é bonita á primeira vista, mas que, pensando bem, te hade fazer uma simpatica mulher.

E quiz que a acompanhasse ao seu quarto, que tinham mudado para o rez-do-chão, para que não se fatigasse a subir escadas; enfeitou-me com todos os seus enfeites e joias, penteou-me de muitas fórmas, e batia as palmas satisfeita, queria que todos me vissem, perguntava á mãe: se realmente eu não tinha o tipo daquella mulher que o Chico lhe trouxera o outro dia numa magnifica gravura tirada duma revista e era a cópia dum quadro que obtivera o premio na última exposição do Salon.

A pobre mãe sorria, um pouco animada por aquelle entusiasmo que lhe parecia prenúncio de melhoras.

Mas não, aquilo foi como descanso da doença, como que para retomar força e voltar ao assalto com redobrada violencia.

Sofria muito, a pobre alma! Já mal podia andar; melhor se poderia dizer que se arrastava, encostada ás pessôas que a acompanhavam.{147} Tinha gestos tão cansados, sorrisos tão murchos, caricias tão frouxas, que eu chorava sem saber porquê, só de olhar para ella.

Queria consolar-me e sorria, mas esse sorriso vinha molhado de lagrimas e descobria-lhe os dentes descarnados numa bôca exangue.

Nunca mais os nossos encontros fôram a horas em que estivesse o Chico. Tambem, pouco me lembrava delle, triste como andava com a doença da Mariquinhas; mas, quando ás vezes perguntava noticias do nosso amigo, respondia-me tão sêcamente que cheguei a imaginar que estavam mal.

A D. Emilia metia dó, e ella tambem olhava para mim fixamente e tinha uma frase de profundo desconsolo, de quasi inveja, que revelava o estado do seu espirito: