—«Como a Raquel tem saüde!...
O mal agravava-se de dia para dia, sem remedio possivel para a pobre querida que suportava heroicamente todos os martirios que a medicina tem inventado para prolongar a vida dos condenados. E ella que queria tanto viver! Tinha tanto amôr á vida que nunca tivera senão caricias para os seus adoraveis dezeseis annos!...
Os pais já sabiam: todos os filhos na idade da Mariquinhas lhes tinham ido da mesma maneira, com os pobres pulmões esfacelados,{148} deitando pela bôca todo o sangue dos seus corpinhos exauridos, sem que a opinião dos medicos chegasse a sêr uniforme sobre o verdadeiro mal.
Quando o tempo peorou e ella tambem já se não podia arrastar até ao caramanchão, ficava por traz dos vidros da janela para que eu a podesse vêr de longe.
Depois, nem isso, deixei de a vêr; e, por mais que espiasse no jardim os movimentos da casa, raro conseguia saber noticias.
Vivia num tal desespero, agora que, desde que a doença se agravara, não consentiam que visitasse a Mariquinhas, com mêdo de contagios!...
E viver ali, a dois passos da unica afeição que me enchia a alma, sabê-la gravemente inferma, vê-la de longe e não poder falar-lhe, era uma verdadeira tortura para o meu temperamento de impulsiva e apaixonada.
Era uma angustia curtida em silencio, que me despedaçava brutalmente o coração.
Um dia, quando atravessava a cosinha para ir á minha piedosa espionagem, a Eulalia voltou-se para mim com uma frigideira na mão e disse-me, com um ar escarninho que me arrepiou:
—«A menina Mariquinhas—sabe?—está a morrer.{149}