E ante a dúvida, claramente expressa no olhar com que a fitei, esclareceu:

—«É verdade! Disse-mo a criada da cosinha. Até lá ficou o medico esta noite.

Empalideci, e cambaleei como se fôsse perder os sentidos. A Eulalia, que me dissera a novidade mais por espirito alviçareiro do que por verdadeira maldade, ao vêr a minha dôr teve realmente pena. Chegou-me uma cadeira, foi a correr buscar agua, que me obrigou a beber, e tentou consolar-me. Era tarde. O medico em casa da Mariquinhas a passar a noite... tinha-me soado como um dobre a finados. Sempre, para o meu espirito de criança, a sua presença assidua fôra presagio de desgraça proxima. Era a certeza de que a morte, que tantas vezes chamara para mim, andava perto, a bater á porta da Mariquinhas...

Uma tremura convulsiva fazia-me bater os dentes como se estivesse a tiritar de frio—era todo o frio da alma que me enregelava o sangue.

A Eulalia consolava-me, apiedada,—talvez que no fundo ella não fôsse verdadeiramente má. A vida, com as suas exigencias e cruezas, torna tão diferentes as criaturas que não têm a alma temperada para as grandes resistencias!—Porque não pedia eu licença para ir{150} visitar a minha amiga? Talvez não fôsse verdade!...

—Pedir á tia?! Nunca lhe tinha pedido nada, a Eulalia sabia. Era esse o meu orgulho, a unica coisa que me tornava, aos meus proprios olhos, num sêr independente e respeitavel.

E a criada, muito conciliadora, como se tivesse despertado na sua alma a natural bondade da nossa raça de sentimentais pelo apiedamento que a minha mágua lhe causava, ofereceu-se para pedir, como coisa sua, a devida licença, se eu quizesse...

Eu quiz, é claro. Era a primeira vez que o meu orgulho se dobrava numa convivencia com a criada, o que me amarrotava e inferiorisava á minha propria consciencia, que foi sempre o unico julgador que temi.

A licença não veiu logo, para mais cruelmente me fazerem sentir a dependencia, mas a rapariga não desistiu e tanto disse que á tarde me entrou no quarto triunfante com a autorisação para ir fazer a visita tão ambicionada.

A noite cahia num agonisar de luz, que as nuvens pesadas de chuva mais velavam.