Ao entrar distingui apenas fórmas indecisas, movendo-se silenciosamente no quarto{151} mal alumiado. Logo a seguir, não sei quem colocou uma lamparina de vidro coalhado sobre uma mêsa, aos pés da cama onde a Mariquinhas agonisava.
Olhei com dolorida surpreza: ella, que fôra tão linda, duma graciosidade que doirava toda uma mocidade que se abria em flôr, tornara-se com a doença pavorosamente feia.
De princípio apenas percebera o estertor rouco, que fazia arfar o seu corpinho mumificado, e uma frouxa mão muito pálida, que apanhava, inconsciente, a roupa da cama. Depois, com os olhos afeitos á quasi obscuridade em que me encontrava, fitei-a com terror e não podia, por mais que quizesse, deixar de olhá-la, num crescendo de angustia que me apertava a garganta e me comprimia o coração.
Chorei então silenciosa mas desesperadamente, num desânimo de quem vê afundar-se todo um passado de alegrias e não vê no futuro luzeiro de esperança.
A Mariquinhas ali estendida, a sofrer, a morrer, ella tão linda, tão gentil, a gárrula, algum tempo antes! Ai, pobre, pobre querida, como desejei sinceramente e como formulei no silencio da minha consciencia o desejo de que a morte me levasse antes a mim e a deixasse a ella, á bôa fada dos meus sonhos, ao{152} anjo da guarda que descera até á minha miseria desdobrando as suas brancas azas acalmadoras!
Mas a luz, avivada num momento, bateu-lhe em chapa no rosto, naquelle pálido rosto tão completamente mudado; a impressão foi por tal fórma brutal que as lagrimas secaram-se de subito nos meus olhos e um grito de terror veiu expirar nos meus labios.
Endireitei-me sufocada, e ia fugir, numa revolta instintiva, á miseria do meu ideal despedaçado. Antes, antes a não tivesse procurado vêr, e guardasse na memoria a linda imagem do que fôra—dizia no íntimo da minha alma aquella voz egoista, e tão fundamente humana, que faz a felicidade dos que a podem escutar a tempo.
Não sei quem me ciciou ao ouvido:—vai morrer!
E, não sei porque estranha percéção daquella inteligencia prestes a desaparecer, ella me presentiu e me reconheceu. Abriu os olhos, uns olhos enormes já postos noutro fito; levantou a mão, já quasi entorpecida; e soltou uns sons inarticulados, que mal pareciam de voz humana.
—«Chamou-a, quer-lhe dizer alguma coisa—murmuraram-me ao ouvido, empurrando-me para a cama.{153}