Fui cahir, desorientada, de joelhos, junto desse corpinho debil que tanto sofria para sêr arrancado á vida.

E nunca, nunca mais poderei riscar da memoria o olhar fundissimo de amargura, quasi odiento, com que a Mariquinhas me envolveu toda, como que sondando-me...

Meu Deus! eu não compreendi, não podia compreender então o desespero da pobre alma ao vêr-me cheia de saüde e de vida, emquanto ella—que tanto amava e desejava viver!—ia desaparecer, para todo o sempre!

Ai pobre querida, que remorso imenso senti depois! Mas nesse instante, fixada por esse seu doloroso olhar cruel, senti uma surda revolta que subiu do mais íntimo da minha alma e me invadiu completamente o espirito. Toda a animalidade saudavel e forte do meu sêr se insurgia contra a inveja expressa nesse olhar de moribunda—que não queria sêr vencida...

E que tinha ella que invejar-me, se alguns momentos antes toda a minha vida, toda a minha saüde, o meu sangue quente e palpitante, tudo eu lhe daria de bôa vontade?!...

A mãe, de joelhos, do outro lado da cama, escondia a cabeça na roupa para que os soluços não amargurassem a doente que tudo ouvia e compreendia.{154}

O pai, enterrado numa poltrona, parecia paralisado pela violencia extrema da dôr.

Dahi para diante não fui mais senhora de mim. Criaturas serviçais, muito práticas em identicas cênas, aconselhavam-me o que devia fazer. Uma velha, principalmente, apoderou-se da minha pessôa e foi-me indicando, com uma intimativa que não admitia tergiversações,—o que é costume fazer uma menina na morte de uma amiguinha.

—«Ella quer falar,—segredava-me—pergunte-lhe se quer alguma coisa.

E tocava-me nos hombros, para que me inclinasse sobre a face cadaverica da Mariquinhas.