—«Então o Chico não era namorado da Mariquinhas?!—perguntei numa ansiedade de dúvida que se deseja não vêr confirmar.

—«Ó Raquel, não diga isso! Quem lhe meteu na cabeça uma loucura dessas?!—perguntou indignado.—Então não eramos como três irmãos, três companheiros de brincadeira?!...

—«Ninguem me disse nada. Eu hôje é que pensei, depois do que ouvi lá em casa, que podia sêr que o que se lembravam comigo fôsse com ella... Ás vezes a Mariquinhas parecia que me tinha raiva, e porfim já não queria que brincassemos juntos... lembra-se?

—«Sim, é verdade. Não tinha pensado nisso. Até pediu para a não visitar quando estivesse a Raquel, porque a sua alegria a incomodava...

Pobre Mariquinhas! A sua figura esbelta e linda levantava-se a nosso lado reclamando a sua parte de aféto, mas o seu rosto pacificado pela morte já não exprimia o vago ciume com que tanto nos mortificara. A sua recordação unia-nos numa afetuosidade e numa saudade igual.

—«Mas então—disse o Chico, surpreso—a Mariquinhas supunha que nós eramos namorados?! Pobre amiga! Uma criança como a Raquel era...{170}

—«Eu não percebi nada—respondi ingenua—nem supunha que era tão sua amiga... Nem que esta amizade era diferente... Hontem é que compreendi tudo!...

—«Mas hontem, porquê? Disseram-lhe mal de mim?!...—perguntou assomado, numa daquellas fogosas cóleras que ensombram rapidamente o rosto do meu amigo.

—«De si, não!... Foi de mim. A estrangeira... disse-me coisas, coisas... que só pensar nellas me faz mal!

Córei e baixei os olhos numa confusão, vendo-o sorrir, já desanuviado.