Desde esse dia nunca mais Luis perdêra aquella ideia, que se tornou uma obsessão: ir visitar a velha casa e reviver diante das suas paredes, que lhe falariam do passado, todo o martirio a que o tinham furtado generosamente. Em vão Eduarda o dissuadia desse capricho do sentimento, que classificava de criancice; em vão ella lhe dizia que o passado estava morto e ninguem mais o poderia resurgir; que não havia imaginação nem vontade humana capaz de fazer voltar atraz o curso da vida, que para elles se precipitara numa cachoeira desatinada e agora ia deslisar num mais bello e sorridente campo.{23}
Mas não! Elle fizera desse projecto o seu sonho, o seu misterio de apaixonado, e iria, sem que ninguem o podesse impedir de o fazer.
A ideia de que a casa que fôra o lar abençoado de toda a sua familia já lhes não pertencia, desvairava-o. Iria, acontecesse o que acontecesse, num romantico impulso de sentimento—que mal compreenderia quem lhe não tivesse compulsado os arrebatamentos de apaixonado—evocar todo o passado e embeber-se bem na dôr das eternas e irremediaveis separações.
Agora, elle ali vinha, como um namorado, revêr pela ultima vez as coisas que já lhe não pertenciam, e que indiferentemente iam tornar-se para outros as suas coisas, os seus afectos.
Para que viera?—pensava já—porque não se deixara guiar pelos conselhos da corajosa rapariga que tão alegremente ia entretecendo um novo ninho com os restos dispersos do antigo, desfeito pelo temporal? Porque viera?!...—É que queria sofrer, ali mesmo, tudo o que tinham sofrido aquelles que amava.
Fugir a isso parecia-lhe uma covardia excessiva. Imaginava sentir assim, pelo poder evocativo da sua memoria despertada pela visão, lagrima por lagrima, desespero por desespero,{24} vexame por vexame, revolta por revolta, a vulgar mas horrivel tragedia desse incidente numa familia burguêsa.
No vagão onde passou a noite, nem uma só vez os olhos se lhe fecharam num sôno reparador. Os nervos em sobreexcitação faziam-no reviver, na memoria, todas as circunstancias torturantes em que se déra o desastre final. Sentia uma doentia voluptuosidade em pensar nos tormentos por que o seu coração teria passado se a elles tivesse assistido.
Os nervos irritados por tantos dias de ansiedade obrigavam-no a agitar-se numa febre de movimento, um desejo de choro, de gritos convulsivos, que lhe desoprimissem o peito...
Cada nome de estação gritado monotonamente, cortando na noite arrastada o sôno dos viajantes, era para elle o martelar desesperador do condenado que assiste ao levantar da sua propria forca.
Em breve, mais um desses gritos ouvidos, a perder-se na noite, e estaria na linda terra, que revia: toda branca e faiscante nos dias ensoalhados de verão, varrida pelas nortadas ásperas da serra, nevada como uma noiva nas invernias inclementes—com as suas paisagens cristalisadas de sonho; as suas feiras rumorosas; as ladainhas atravez dos campos em flôr, pelo despertar das primaveras amorosas; as romarias{25} barulhentas, sob um sol sufocante de canícula... Depois, os descantes; os natais, em que fôra, romeiro piedoso e crente, ao presepe do menino; as janeiras, cantadas á sua porta e em que os versos laudatorios lhe agradavam sempre; as semanas santas, com procissões na rua, por esse agonisar de sol doirado em que um Deus assistia á morte doutro Deus...