Tudo isso elle revia, todo esse passado distante se apoderava da sua alma e o fazia viver por momentos uma existencia, que se não repetiria mais.

Agora, em frente da antiga casa que lhe enchêra de sonhos os últimos mêses de vida, Luis sentia-se frio.

Quizera sentir muito e não sentia nada. Nenhuma comoção, nenhuma dôr—na sua alma gelada.

Nem a casa lhe parecia a mesma—e decerto não era!—cortadas as trepadeiras que a revestiam de verde e lilaz e que a perfumavam dôcemente com os cachos exoticos das glicinias rôxas. Até as janelas tinham sofrido o insulto de serem repintadas de vermelho, e as paredes estavam caiadas de branco, essas paredes de granito polido que tinham ao sol faiscamentos de mica e escureciam sem se{26} resentirem das intemperies, suavemente, como se envelhece sem sobresalto nem luta, quando se vive sem preocupações.

Já não era a mesma—nada lhe dizia ao seu coração que era a mesma.

Lançou pelas janelas abertas um olhar de indiferente curiosidade para o interior e então quasi lhe deu vontade de rir, tanto era banal o mobiliario que a guarnecia, tão charramente burguêsa e sem gosto a decoração que a tornava uma casa trivial de endinheirados, de adventicios sem educação.

Fechou os olhos, concentrou-se por segundos na evocação do passado, quiz enganar-se a si proprio, mas não o conseguiu; a sua alma quedou-se, por fim, numa frieza e numa desolação de completo desmoronamento.

Faltava-lhe o quintal; voltou-se para seguir ao longo do muro, deitando um olhar prescrutador para o pequeno jardim gradeado, que era no seu tempo um tufo apenas de verdura, e sofrêra, como a casa, a influencia dos novos dônos.

Sim, no quintal ao menos iria encontrar as mesmas arvores, os mesmos recantos amaveis de sombra, o mesmo perfume saudavel do pomar e da horta verdejantes.

E seguia, rapidamente, olhando o muro de pedra solta e que era bem o mesmo que bastas{27} vezes saltara para comer os bellos cachos de uva ferral de grandes bagos córados.