Ora uma vez, a pretexto de caçadas que se faziam melhores que em parte alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar umas férias na aldeia, o seu mais íntimo amigo e companheiro mais certo das suas noitadas e troupes em vesperas de feriado.
Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo, juntaram-se á caravana dos mais rapazes da região e seguiram, como era costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como um verdadeiro batalhão, que ia diminuindo, não pela morte, mas pela alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos companheiros até ao fim das férias.
Fôram elles os últimos a chegar ao vasto casarão de provincia, onde a adega estava{183} sempre aberta, as espingardas carregadas atraz da porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cosinha, sujando as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos amos que riam das suas partidas e se sentiam muito á vontade no meio daquella desordem.
Manoela era um verdadeiro milagre de graça e pureza num meio tão vulgar e rude.
O rapaz, ao vê-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior para o andar nobre da casa, para abraçar o irmão, ficara deveras impressionado. Tanto mais que não contava encontrar, numa irmã do seu herculeo companheiro de estúrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas, uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.
Á primeira impressão de agradavel surpresa seguiu-se o desejo da posse e o projéto da conquista.
Para que essa criança, ignorante e ingenua, se prendesse a um homem que lhe falava a dulçorosa e enganadora linguagem de vulgar D. João, que para ella representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas outras têm, como ella, sofrido, não era preciso muito.{184}
Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar uma alma tão confiada e crente, na sua ignorancia infantil; mas elle, conquistador sem escrupulos, de palidez sentimental e cabeleira romantica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amôres infelizes com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que soluça baixinho caricias de beijos gritando alto paixões estridulas... Elle, sem alma nem consciencia, viu apenas a flôr que se abria á vida e que as suas mãos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa inutil e sem importancia.
Representou, mais uma vez, a vulgarissima comedia do amôr-paixão, em que ella, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingenua e pura, deixando-se arrastar, sem que houvesse mão amiga que a fizesse parar a tempo na descida perigosa.
Acabadas as férias, promessas feitas e juradas, elle partiu alegre e triunfante, ella ficou abismada na mais desesperadora tristeza.