E ella sentiu-se assim prêsa pelo reconhecimento, integrando-se numa vida que em breve seria tambem a sua.
A mãe perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou ficar alguns dias fóra, para vêr a cidade.
—Não; se tinha que entrar ali, então que fôsse já. Vêr a cidade para quê?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz,—aquilo que era a existencia da outra gente?
Não estava ella perdida, morta para o mundo, despedaçado tudo que tinha feito o encanto da sua propria existencia, que era{181} agora uma coisa áparte, fóra da normalidade?!...
A mãe aprovou, contente com aquella resolução; ansiava por a vêr entregue aos cuidados da bôa tia, Soror Gertrudes, que a recebeu soluçando de contentamento e magua—alegria de têr a sobrinha junto de si, fundo desgosto pela sua imensa desgraça.
Porque era uma historia um pouco triste, a dessa rapariga, que assim vinha esconder a sua vida em flôr no silencio dos longos corredores cheios de sombra, adormentar o espirito nessa vida que já pertencia ao passado.
Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quasi inteiramente abandonada a si mesma, visto que a mãe, duma devoção estreita e dum caráter frio e áspero, entregava-se por completo á prática das suas muitas rezas e orações e deixava os filhos em plena liberdade.
A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existencia, retrahindo-se numa aparencia de frieza melancolica.
Os irmãos, três rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras, caçando pelas serras, comendo e bebendo á tripa-fôrra com os companheiros, jogando o pau pelas romarias{182} e feiras—senhores morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e dos quais todos os homens tinham como honra a convivencia.
O mais velho, bom rapaz, bronco e ingenuo apesar da sua aparencia de gosador, fôra para Coimbra por sua alta recreação, segundo o costume tradicional dos morgados beirões, e por lá se ia formando aos solavancos: R R daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os amigos, sempre alegre e satisfeito comsigo e com os outros.