Não havia pois maneira de legalisar ao pequenino ente que vivia já da vida da infeliz mãe, a entrada no mundo e na familia.

Tratou-se então de esconder um facto—que seria a vergonha para todos.

Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e foi ali, entre rochedos desolados e na visinhança lugubre dos lobos que uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos unicos cuidados e carinhos da ama, teve uma filha.{187}

Com que dulcido encanto, depois do martirio de algumas horas, em que as velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ella acalentou nos braços o corpinho fragil, que era uma parte do seu proprio sêr, e premia sob os seus labios febris a carnesinha arroxeada e setinea da pequenina face!

Nos olhos, que mal se abriam á luz, queria ella lêr um infinito de ternura; da boquinha, que ainda não sabia sorrir e já sabia chorar, esperava talvez ouvir palavras de justiça e consolação...

E as lagrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas, lagrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.

A Ama-Rita chorava tambem, sem coragem para de pronto lhe arrancar a criança, como lhe fôra ordenado, na impotencia de todas as bôas almas para despedaçar uma ilusão alheia, principalmente quando toda uma existencia está suspensa dum sorriso de criança.

Foi ainda a mãe que a veiu arrancar desse passageiro sonho, anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde Soror Gertrudes já a esperava.

Manoela revoltou-se:—o convento, a prisão para ella, que apenas fôra uma vitima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?...{188}

—Era, sim, tão grande que já coisa alguma poderia lavar essa mancha do seu nome, recahindo sobre toda a familia. Apenas o silencio e a ausencia poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do público!...