Soluçava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando as palavras que sahiam frias e ásperas da bôca da mãe.
—«Bem, irei!—disse por fim Manoela, resignada—mas ao menos quero levar a certeza do seu perdão, minha mãe!...
—«O meu perdão?! Não, nunca poderei perdoar á senhora que assim desce ao nivel de qualquer camponia sem principios...
Então, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela levantou-se tambem com altivez.
Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laços que a prendiam a essa mãe que a repelia sem encontrar uma atenuante á sua culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existencia tão cêdo anulada.
Embora! Se não lhe perdoavam os outros, absolvia-se ella a si mesma. Não conhecia o mundo; mas a sua consciencia presentia vagamente que não eram justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito{189} social, que entre dois cumplices escolhe, para imolar como vítima expiatoria no altar da hipocrisia, aquelle que pela inocencia e ignorancia menor responsabilidade apresenta.
Avaliando bem—agora que a vida se lhe antolhava tal qual é: cheia de deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os fortes e cinicos...—a perversidade moral do homem que amara, uma grande repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espirito por tal criatura.
Vieram então novas cartas de Coimbra nas quais o irmão, numa furia brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava matar os lobos que lhe ameaçavam os rebanhos, e não o podera encontrar.
«Apenas lhe souberam dizer: que fôra com a mulher passar a lua de mel, não lhe quizeram indicar para onde. Oh, mas havia de encontrá-lo, fôsse onde fôsse, fôsse como fôsse. Quanto á irmã, que desaparecesse—não a queria mais vêr!
Manoela sorriu, já conformada.