—«Adeus Ama-Rita,—dizia-lhe na última hora—estima a minha filha como me estimaste a mim, e que Deus a faça mais feliz do que a sua triste mãe! Até... um dia—em que nos havemos de encontrar.
Mas quando esse dia?... Não sabia, não via nada claro no seu futuro.
Encostada á varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora, passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o horizonte, e naquella ocasião, em que a primavera tudo cobria com o seu verde manto, se afofava em cambiantes de pelucia cara.{192}
Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluços que a sufocavam e limpava as lagrimas á ponta do avental.
Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e pedregosos, deixando-lhe tal confusão no espirito que nunca saberia dizer por onde passara nem o que vira.
Logo á chegada, a mãe conferenciou com Soror Gertrudes, tia do marido, agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela morte das últimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.
A mãe partiu, socegada emfim, sem saüdades que a fôssem mortificar ou distrahir dos seus austeros deveres de bôa católica.
Tambem a filha as não sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem estimado aquellas almas, que ninguem diria tão estreitos laços uniam, tal a dessemelhança que involuntariamente as separava.
Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaçando com todos, enchendo a casa de vida e satisfação. E um dia, subitamente, estando{193} sentado á mêsa, do rompimento duma aneurisma morrera.
Quasi se não lembrava do facto em toda a sua nitidez, tão longinqua era essa recordação, que ficara apenas na sua alma infantil como sensação dolorosa, a primeira tristeza na sua vida tão cheia dellas.