Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo caráter, essa amizade confiante que lhe faltara, essa alegria que tão bem fazia á sua alma dolorida.
Sentia-se envolver naquella atmosfera de paz, que nunca tinha respirado, e sentia-se bem naquelle esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.
Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por noticias de casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis preocupações de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a Senhora de invocação diversa, o presepe no Natal, o dôce para a venda, a mesma comida sempre ás mesmas e invariaveis horas.
Mas um dia Soror Gertrudes morreu.
Manoela tinha então vinte anos. Era uma criança pela simplicidade do espirito, que ficara ingenuo e ignorante do mal, apesar de tudo,{194} mas era uma verdadeira mulher pela reflexão e pela dôr.
Os últimos quatro anos passados naquella casa conventual tinham decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.
Depois da catastrofe que lhe angustiara a existencia, a alma tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver inconsciente e passiva essa vida comum sem que nella tomasse verdadeiramente parte.
Dir-se-ia um meio estado sonâmbulo de que a morte da tia, a bôa Soror Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.
Como ia sentir a falta dessa querida vélhinha, que lhe dera um aféto todo maternal na solidão em que a austeridade da verdadeira mãe lhe deixara o coração!
Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de conforto da bôa vélhinha tinham sido um grande bem para o seu espirito.