—Aconselhava-a a têr esperança—o futuro traz surpresas que não podemos prevêr.... E ella era tão nova, santo Deus, como desesperar?! Socegasse, estava entre bôas criaturas que a amavam, e ella como tia a teria sempre junto de si. Ainda que o não fôsse,{195} estimá-la-ia na mesma, bastava sêr uma criança que a desgraça lhe tinha tão tragicamente arremessado aos braços...
Tinha razão Soror Gertrudes—Manoela era bem digna de piedade. Entrada apenas na vida, era della expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento. Quebrados todos os laços que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava dessa pobre rapariga tão admiravelmente feita para amar e sêr amada?
Sentia-se cahir pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os braços em busca dum apoio, e encontrou a mão trémula, o sorriso alegre na sua bôca desdentada, e a face macerada da freira, que para ella teria carinhos inegualaveis.
Bem sentia ella o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada dizia para não afligir a sobrinha.
Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mão ao seio esquerdo, num gesto mecânico, quasi involuntario.
Manoela sobresaltou-se quando as dôres começaram a sêr mais amiudadas, lembrando-se da terrivel molestia que de quando em quando assaltava a sua familia paterna.{196}
A tia socegava-a:—era um nascido que tinha havia muitos anos, não seria coisa de morte...
Mas nos últimos três mêses a doença agravara-se caminhando rapidamente para o fim.
O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente o pequenino seio esteril, branco como o marfim—esse seio que guardara com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua infermidade horrivel.
Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a côr, vacilou e só se conteve por um esforço de vontade, que se manifestava nella com a revolta natural contra mais esse golpe do destino.