Dahi para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o martirisante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dôres que ella ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.

Foi-lhe infermeira solícita, disfarçando a repugnancia que lhe inspirava a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quasi negros, numa aparencia ascorosa de podridão. Em volta a péle retesada do peito ia-se abrindo e esfarelando.

Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrivel que tão cuidadosamente tratava,{197} e que era o fim—ella sabia-o—dessa existencia tão querida.

Por fim Soror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ella assistiu-lhe á agonia, que durou dois longos dias,—lento quebrar de cadeias que se tinham enferrujado mas não carcomido.

Quando a superiora declarou que chamassem Soror Angelica para a substituir, porque já se não podia levantar e a morte não tardava, toda a comunidade acudiu em pranto:—era pois certo que Soror Gertrudes as ia deixar para todo o sempre?!

Foi-se prevenir o capelão, que a confessou rapidamente, tal era a inocencia dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunhão todas as freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam silenciosamente, com os véos negros cahidos sobre os seus rostos de cerusa.

Manoela encostara-se á cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer esse leito onde a morte já se instalara triunfante.

A ceremonia prolongou-se com o perdão que a moribunda foi pedindo a uma por uma das suas companheiras, numa voz que era já um éco de outra existencia passada.

Quiz a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperança dum futuro melhor. Deixava-lhe{198} o Menino Jesus do Milagre, que fôra o seu companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do Paraizo ali morrera e lho deixara por lembrança. E deixava-lhe tudo mais que propriamente possuia, e bem pouco era, naquella vida estreita de renúncia.

Dirigindo-se a Soror Angelica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para ella todo o seu amôr e carinhosa solicitude.