Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o último lampejo de vida, tal como aquelles cadaveres conservados intactos por anos e anos nos seus tumulos socegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em pó.{201}

[III]

Manoela sahiu do dormitorio logo que a tia deixara de existir.

Cambaleando, os olhos sêcos, a alma vazia, sem a sensação dolorosa da pena, como se a tivessem magnetisado para a furtarem ao sofrimento, apenas uma necessidade material a impulsionava.

Tinha sôno—havia tantas noites que não dormia!

Agora que tudo estava acabado, que não havia uma esperança a sustentá-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpôr que segue a excitação dolorosa de dias sobre dias de espétativa diante da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reação era tanto mais violenta quanto fôra maior o predominio do espirito sobre a materia.

Logo na pequena sala contigua ao dormitorio, que fazia de livraria, deixou-se cahir numa cadeira sem força para ir mais longe.

No dormitorio ia um vai-vem silencioso que mais parecia mover de sombras num pesadêlo. As freiras ciciavam ordens ás criadas, acendiam-se{202} luzes, rezavam baixinho, limpavam as lagrimas que teimavam em enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em vida e logo ao entrar para o convento, noviça ingenua e formosa, lhe tinham dito que seria a sua mortalha.

E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao unico sôno consolador dos infelizes, porque é daquelle que se não acorda para sofrer mais.

A sua face, serenada pela morte, reflétia a suprema felicidade de não existir conscientemente num triste mundo tão cheio de desacertos e injustiças. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mãos com devoção:—que o seu rosto de santa reflétia já todo o goso da bemaventurança.