Manoela, abrindo os olhos no meio sôno em que ficara embebida, viu os pés da morta calçados com as sandalias da ordem, magros e compridos, atados com uma fita para não descahirem; e, mergulhando de novo em letargo, sonhou que esses pés caminhavam por sobre o seu corpo desfeito e lhe batiam com força no coração. E a sensação foi tão dolorosa e a dôr tão forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe suspendia{203} quasi a respiração e a fez gritar levando as mãos ao peito, sufocada.

Foi quando Soror Angelica veiu têr com ella e a condusiu para o segundo dormitorio, fazendo-a deitar na sua propria cama, encarregando uma irmã leiga de a vigiar e acompanhar. Então Manoela cahiu num sôno pesado e mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irmã leiga punha termo chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.

Era já manhã quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se iam fazer no côro e para os quais toda a comunidade se preparava.

Levantou-se sobresaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum terrivel pesadêlo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal qual a deixara... Atiraram-lhe o véo para a cara, composeram-lhe o vestido, e levaram-na pelo braço, sem que compreendesse intimamente de que se tratava. Mas quando se encontrou no côro e viu a morta estendida no chão sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os véos cahidos e segurando velas acêsas,{204} compreendeu finalmente o que se passava, a sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.

Já não havia dúvida possivel, e a noite, que se passara num atordoamento de sonanbulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrivel fatalidade.

Debaixo do véo que lhe cobria o rosto, as lagrimas corriam sem cessar mas já sem explosão de soluços, tão amargas e lentas que cada uma parecia vir arrastando um pedaço da sua alma esfacelada.

Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o véo preto, o sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de reclusão a tinham feito esquecer que a vida existia fóra daquellas paredes soturnas.

O véo era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que os seus olhos halucinados vissem, debaixo do grosseiro hábito, o peito entumecido escancarando-se na repelencia da ferida.

Finda a encomendação, seguiu atraz das freiras, vélhinhas alquebradas e esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa fila que vinha do côro.

Era o último enterro a que assistia ali, porque a nova lei prohibia enterrar fóra do cemiterio público e fôra não pequeno trabalho{205} para se conseguir das autoridades aquella excéção em favôr de Soror Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.