Manoela tremia de pavôr observando a serenidade extatica das freiras, que não se distinguiam umas das outras, com os véos negros derrubados, as velas a arder na mão direita, hirtas e silenciosas e graves como espétros.
Lá dentro,—quem sabe?—talvez que as suas almas tremessem de frio a cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituidas.
Já no refeitorio iam faltando tantas que, ao meio dia, a hora antigamente tão alegre de jantar,—quando sobre as toalhas de linho alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas mêsas estreitas e compridas, voltadas para o pulpito, o logar de cada uma—mais parecia que a sineta chamava para um banquete de sombras.
Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde já repousava o cadaver, e cada um ia deitando uma pá de terra, seguindo-se na ceremonia toda a comunidade.
Ah, bem feliz era Soror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo junto das{206} suas irmãs, vivendo com ellas no eterno sôno, sob o abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmurio fresco da fonte que transbordava na sua concha de marmore. As outras—pobres dellas!—já não teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam relegadas a mãos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos cemiterios.
As velas tremiam nas mãos enrugadas das pobres vélhinhas.
Das trinta e três freiras que o Livro da fundação dava como limite para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Christo, e que ao soar a hora, que para muitos fôra de redenção e para ellas de mágua, se preenchera á pressa, abreviando as profissões das noviças, já quinze dormiam insubstituidas sob as lages do claustro.
Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a dôce ilusão de assistirem com ellas na vida comum.
Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si:—de qual será agora a vez?—terrificadas com a ideia de sêrem a última.{207}
Soror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a ceremonia funebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura histerica fizera uma bôa prêsa.