Como é que desce tanto a raça humana?
Como é que um Povo culto
Supporta resignado a mão tyranna
Que lhe arremessa o insulto,
E deixa ir esmagando sob as lousas
As filhas, mães, e esposas?
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Horas depois os martyres morriam
Ás mãos do indigno algoz;
Boatos na cidade percorriam
Porém a plebea voz
Produz-se eternamente no vazio...
Por isso... não se ouviu!
El-rei dava audiencia; ao seu ministro
Fel-o marquez e conde;
O premio era brilhante mas sinistro,
E a Historia ainda esconde
Os prantos que verteu, porque o terror
Suffoca os ais á Dôr!
Comtudo alguma cousa se levanta
A protestar com ancia;
Alguma aspiração sublime e santa,
Em firme reluctancia
Descobre ás gerações os negros rastros
Dos portentosos astros.
E chama-se Consciencia á eterna força,
Que os seculos correndo,
Sem que a linha traçada alguem contorça,
Pharoes vae accendendo
Nos angulos do turvo precipicio,
Onde faz ninho o vicio.
Em nome d'essa força que defende
O fraco, o pobre, a creança,
Gigante luminoso que se estende
Da morte á loura esp'rança,
É que eu reprovo a impia atrocidade
Da velha sociedade.
Sou democrata e mãe; procuro um norte
De Liberdade e Gloria;
Acceito essa revolta ardente e forte
Que faz tremer a Historia,
Porém condemno o immano desvario
Que mata a sangue frio!
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Que a lei arvóre o facho augusto do Direito,
E vá depois cravar nos intimos do peito
As garras da Inclemencia,
Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame
Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame,
Revolta a sã Consciencia!
Se o misero infeliz que pelas praças dorme
Calcado pela dôr, medita o crime enorme
De procurar viver;
Se presa da afflicção divaga pelas ruas,
Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas,
E os prantos a correr;
Se a esposa que implorou á sociedade honesta
Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta,
Se encontra repellida;
E para alimentar um filho, irmão ou pae,
Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae
Manchar-se, prostituida.