Chegam junto do poste; ahi pára tudo.
O algoz, sem mais respeito
Bate no hombro á martyr; fica mudo
O feminino peito,
Varado pela intima agonia
Da infrene tyrannia.
«Levanta essa cabeça, infiel traidora!
Ordena-lhe o carrasco;
«Tu serás a primeira, que és senhora!
E com medonho chasco
Procura, um por um, os instrumentos
Que servem aos tormentos.
«Vê marqueza de Tavora--era a triste!
«Que esplendidas tenazes!
«Sabes quanta virtude aqui persiste?
«São para os teus rapazes.
«Applico-lh'as na cara, mesmo em braza,
«E faço--taboa raza!
«E as torquezes? São rijas de uma vez!
«Agarram como o brêo!
«Hão de arrancar os olhos ao marquez,
«Meu amo e senhor meu;
«E emquanto lhe correr o pranto amargo
Protesto que o não largo!
«Fidalga sem vergonha, olha os cutellos
«Com que eu lhe parto as pernas.
«Agarro-lhes depois pelos cabellos,
«E, lanço-os nas cisternas.
«Porém seu coração traidor, e infausto,
«Dos corvos será pasto.
«Vá! Morre descançada, morre em paz,
«Que eu mato os teus tambem!
«Vão todos para o monstro Satanaz!
«E tu, que és boa mãe,
«Deves nutrir os jubilos eternos
«Por vel-os nos infernos!
«Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado,
«Sou eu que o amortalho
«Nos farrapos do opprobrio e do peccado,
«E em cinzas o retalho.
«E para mór despreso demonstrar
«Atiro-as logo ao mar.
«Recae-a em tua fronte todo mal,
«Infamia e maldição!
«Sepulte-se n'um torpe lodaçal
«Teu limpido brazão,
«E fique para sempre o nome teu
«Mais vil que o de um judeu!»
A martyr, com a vista erguida ao espaço
Soffria silenciosa.
Rodeia-lhe o pescoço o frio laço
E a victima formosa
E ao ver fugir da vida os aureos brilhos
Só diz «Filhos, meus filhos!...»
Ó mães! Que dôr suprema isto traduz!
Que turbida epopeia!
Ó povo soffredor, fóco de luz
De onde irradia a Ideia,
Medita; o que ha de mais cruento e féro
No coração de um Nero?!