IV

Vem rompendo a manhã, dizem as aves
Seus canticos tranquillos e suaves.
As perolas da aurora, sobre as flôres,
Parecem lamentar ignotas dôres;
E a voz do pegureiro, nas collinas,
De envolta com as phrases purpurinas
Com que o espaço saúda a Humanidade,
Tem um cunho supremo de saudade,
Tem um ecco de angustia tão sentida,
Como a corda de uma harpa, que, partida
Expande pelo ether seus lamentos.

Vem rompendo a manhã, nos movimentos
Dos multiplos anceios luminosos
Que agitam sem cessar a humana arteria,
E transformam as lides da Materia,
Parecem destacar-se uns sons dolosos,
Que a Naturesa arranca das entranhas,
E que vibram no valle e nas montanhas.

E comtudo nos floridos caminhos
Balouçam brandamente os doces ninhos,
E reflectem nas limpidas correntes
As nuvens azuladas, transparentes,
Como um espelho brilhante da Consciencia,
E as varzeas em virente florescencia
Espalham pelo ambiente seus perfumes.

Mas escutam-se ao longe alguns queixumes,
Mas um grande alvoroto se aproxima,
E parece que a aurora desanima,
Que os doces rouxinoes tremem de susto,
E pende a Naturesa o roseo busto!

Quem é que vem então por essa estrada,
Quando apenas desperta a madrugada?
Que significa pois tanto tropel,
Que quer dizer a angustia tão cruel
Que pulsa ahi no seio universal?

É talvez um factor do negro mal,
Algum gigante audaz, filho da noute,
Algum Attila ou Nero, rijo açoute
Das coleras divinas, e illusorias,
Que vem correndo as turvas trajectorias
Do vicio, do rancor, do odio insano,
Até rasgar o peito ao ser humano!
.................................
É um cortejo que segue... quem será!?
Já passam muito perto...
Que numerosos são! Que vejo!... Ah!
Com passo frouxo e incerto
Caminha uma mulher, em desalinho,
Mais pallida que arminho.

De um lado traz o padre, e de outro o algoz
De ventas dilatadas
E a estupida expressão de um ser feroz.
As brancas mãos ligadas,
Veem roxas das auras matutinas,
E das correntes finas.

Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante
Dos tristes condemnados,
E ás vezes solta um ai tão lancinante,
Que tremem magoados
Os proprios corações mais rancorosos,
E os monstros mais odiosos.

Vem seguida dos filhos e do esposo,
Santissima cohorte
Que vae cahir tambem no seio iroso
Da vingativa morte,
Que o ministro do rei, fero e iracundo,
Arroja sobre o mundo.