Infando laborar! Contradicção tamanha,
Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo,
E nos traz á memoria a flórida montanha
Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!
Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo
Quando és synthese só das leis da creação!
És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso,
Proclamas o Progresso, e dás a Destruição!
Exhaures toda a força em busca da Verdade,
Penetras com valor nos seculos remotos,
E quando julgas ver a eterna claridade
Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!
Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja!
Que infrene marulhar na logica dos factos!
E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja,
Ha de chegar emfim aos desenganos latos.
Buscae por toda a esphera a perfeição preclara;
O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo;
A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara,
A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!
A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra,
E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;
Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra,
E põe um muro espesso em face ao Pensamento.
Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro,
Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade;
E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro
Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!
Nos dramas do Universo ha sempre imitações
O fado é perennal, a fórma é transitoria;
Cada época produz idoneas mutações
E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.
Se um dia a raça humana attinge os lisos portos
De seus nobres ideaes, então, forte e sublime,
Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos,
Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.
E então, em vez de honrar ministros, generaes,
Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,
Dará seu preito eterno ás leis universaes,
E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!