E após, hórrido insulto á crença humanitaria!
Por um delicto falso
Estende-se no Porto a rede sanguinaria,
E o torpe cadafalso
Arranca friamente a vida ao triste paria!
Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,
Forçaram-se a seguir
O sacrificio immano, onde o valor recua,
E a ver a mãe subir
A via da amargura, e escarnecida e nua!
E um homem venerando, um martyr impolluto
Que a Consciencia chora,
O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,
Sereno como a aurora,
Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!
O que ha que justifique o horror de taes supplicios?
Que espirito medonho,
Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?
Não julga quasi um sonho
Que um homem só, profunde infindos precipicios?
Quem ha que não palpite em plena indignação
Olhando um nobre velho
Manchado pela affronta, exposto á impia acção.
Pondo um lastro vermelho,
Na terra onde semeia a intima afflicção.
Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,
Violada em seu pudor,
Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta
Nas ancias do terror,
Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?
Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,
Comquanto fôra filho,
Havia de exprobar ao potentado morto
O mortuario trilho
Que abriu com turvo affan no coração de Porto!
Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,
Comquanto fosse Mãe,
Havia de olvidar o astro de Lisboa,
Para escutar além,
O brado perennal que pólo a pólo sôa!
Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;
Proclama-o democrata!
Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças
E dize se arrebata
Um nome que traduz as mais crueis offensas!
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E o titan que esmagava assim, rude e febril,
Os braços da nação, os braços productores,
Os ferros destruia ao escravo no Brasil,
E baixava ao commercio os olhos protectores!