Pires.—Tem-me vindo a repiques de fazer o que Vossa Mercê diz; mas quem sabe se bulir-lhe será peor, e se já debaixo dessa malfadada Pata estará o bicho sahido, o qual, mexendo-lhe eu, me trafegue logo para as suas entranhas danadas, sem me deixar dizer esta boca he minha; pois tal será elle, que já ao romper da casca faça destas trepolías! Na verdade lhe digo que trago o meu coraçaõ negro como a noite escura: tal o tenha quem me quizer mal! E tudo isto, aqui para nós, vem-me de hum sonho de má estreia, que, se fôr verdadeiro, qual por nossos peccados será, temos ahi a fim do mundo!

Fernandes.—E que sonho foi esse taõ desestrado?

Pires.—Ai! naõ he bom assoalhar similhantes cousas! nada queira saber, naõ aperte comigo, por vida sua lho peço, pois temo conte a outrem o que eu lhe disser, ou de alguma falla mal considerada, por onde tudo se venha a descubrir. Olhe, Snr.ª Comadre, por hum cravo se perde huma ferradura, por huma ferradura hum cavallo, por hum cavallo hum cavalleiro, por hum cavalleiro huma praça, e por huma praça hum reino; isto lhe digo eu para ficar entendendo que o descuido de huma palavra póde pôr o meu sonho nas bocas do mundo, e alevantarem-se daqui muitas carrapatas, de que o Senhor me defenda!

Fernandes.—Nisso diria Vossa Mercê bem se eu fosse de geraçaõ chocalheira; mas cá naõ ha desses achaques, embora o digamos: e ainda que lá dizem, da má mulher te guarda, e da boa naõ fieis nada, mulher eu sou capaz de ter maõ nas agoas, como as pintadas em parede. Com que, minha amiga, desabafe comigo com todo o desafogo, que eu lhe prometto, á fé de christã, a ninguem abrir boca; só se fôr á nossa amiga Cascalha, por ser{5} cá do peito: quem me quer bem, diz-me do que sabe e dá-me do que tem. Mas essa mesma, com ser hum poço de segredos, como nós sabemos, ha de jurar guardar este em verbo Saçardotes; senaõ nada feito.

Pires.—Sendo assim, naõ terei duvida em lhe contar o caso; porém veja primeiro o que me promette: antes que cazes, olha o que fazes.

Fernandes.—Póde fallar, está dito; faça de conta que está aos pés do seu Padre Confessor.

Pires.—Pois, Snr.ª minha, sonhei eu que essa amaldiçoada Pata já tinha tirado os ovos, e que de hum delles sahira huma serpentarrona, cousa espantosa! ou naõ sei que maldita casta de monstro, pois se compunha de partes taõ estranhas entre si e desconcertadas, que fazia dar volta ao miolo; até ali havia unhas de leaõ e esporões de galo! Entaõ aquillo, fosse o que fosse, tinha tres a quatro cabeças, ou cinco seriaõ ellas, valha a verdade, que eu com o meu susto poder-me-hia enganar na conta: o certo he que huma das taes se cobria com huma grande casca, bem similhante no feitio a huma cousa que eu já tenho visto, mas poucas vezes, por isso naõ posso dizer o que he; posso, sim, affirmar ser cousa de monta: o Senhor bem me entende.... Todas as outras cabeças eraõ de catadura terrivel; porem a daquella faria erguer os cabellos a hum calvo, atirando-lhe com a peruca até essas estrellas; e bem se via que era nella aonde o monstraõ diabolico tinha o maior poder da sua peçonha. Esquecia-me dizer que este demonio, sumido seja elle, disfarçava as desformidades do serro medonho com huma capa lustroza, assim a modo de tartaruga, ou de outra concha de além mar, mas nem tudo que luz he ouro! Ora dos outros ovos sahiraõ varias salamandras nojentas e lagartos feios, todos taõ arrastados como o credito de Judas traidor. E ha de Vossa Mercê cuidar que haveria bulha entre a bicharada e o bicho grande? Pois naõ Snr.ª; todos elles estavaõ muito de mano a mano: taõ bom he o diabo como sua mãi.

Fernandes.—Eu estou a tremer com similhantes bicharocos! A benta hora seja comnosco! Isso naõ deve de ser cousa de Pata!

Pires.—Sim, Snr.ª, he o que lhe digo; foi a mesma Pata que os pôz a todos, taõ real e verdadeiramente como andar eu tolhidinha, azangada, levada das más horas; e mais defumo-me a miudo com alecrim colhido em a noite de S. Joaõ; como em jejum arruda e alho; e trago ao meu pescoço maõ esquerda de toupeira, com aza de morcego macho, nascido á meia noite em ponto de huma terça feira, e apanhado ao sabbado em encruzilhada{6} ao pino do meio dia; e ainda assim Deos sabe o que por cá vai, esperando a todos os instantes vêr por obra esse mofino sonho!

Fernandes.—Ai! que te eu vejo tal, morro em antes de me estrancinhar essa cousa ruim! Grandes malquerenças e grandes diabruras nos andaõ por casa: cégo he quem naõ vê por hum crivo! A minha franga, Snr.ª Comadre, tambem he hum signal dos muitos feitiços que nos perseguem; pois, sendo ella d'antes, como na verdade era, cristalhuda, azivieira, sacudída, e em fim hum pino d'ouro, taõ máo olhado lhe deraõ que, mettendo-se-lhe por entre os voadouros huns taes piolhos endiabrados, nunca mais foi senhora sua a pobrezinha da bicha, nem mais pôde alevantar a aza.