No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso país, apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e, apressadamente, retiraram tambem do seu lugar o tumulo da Rainha Santa, o objecto da sua mais estremecida estima, indo ocultá-lo numa cela do dormitorio, a última do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta confiança o{19} entaiparam sob um arco que engenhosamente foi disfarçado com uma cortina de alvenaria.
Aí se conservou o tumulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que se estabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu lugar com grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de Coimbra que anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada Protectora, da sua excelsa Padroeira.
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Infelizmente não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo da Rainha Santa.
Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo para o côro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele ano, foi D. Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu séquito, foi aberto o caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa de D. Dinís.
Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de 1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando aqui esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912 conservou-se sempre o tumulo da Rainha Santa no referido côro.
Como a esta data o convento de Santa Clara não tivesse já quem zelosamente pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local onde êle estava não oferecia as necessarias condições de segurança, podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer residencia neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa desta Confraria que o{20} tumulo fôsse mudado para o lugar que lhe era mais proprio, a tribuna da Capela-mór da Igreja, lugar onde agora se conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a fidelidade a forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar ocasião de presenciar tão emocionante como piedoso acto, cuja descrição respigamos dum jornal desta terra[[2]].
«Do côro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado para a tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riquíssimo túmulo de prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.
«Esta trasladação, sem dúvida motivada pelos rumores que corriam nesta cidade, rumores estes em que se salientavam até actos menos respeitosos, fez-se com a possível reserva afim de evitar aglomerações nada convenientes ao bom êxito da trasladação.
«Ainda assim, o número de pessoas que se reuniu no templo de Santa Clara, na ância de assistir a tão piedoso acto, foi elevado, vendo-se ali representadas muitas das principais famílias de Coimbra.