Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.ª o sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da Universidade de Coimbra[[1]], constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais altos beneficios em favor dos desprotegidos.{10}
CAPITULO III
Morte da Rainha Santa
Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos monarcas.
Quando a Rainha Santa soube de tal resolução imediatamente se resolveu a partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho acompanhado de toda a Côrte.
Êste propósito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inuteis rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha Santa, despresando esses bons conselhos e animada sómente em restabelecer a paz entre os reis desavindos—filho e neto—, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas cheia de animo para cumprir a sua carinhosa missão.
Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saude exigia.
Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma pústula que rapidamente{11} lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o seu estado e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria receber os ultimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua ultima hora, e erguendo o pensamento até ao Ceu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiastico:
Mãe de graças e Misericordia
Maria piedosa e forte:
Livra a minha alma, recebe-a
Na hora da minha morte.
A seguir recita com visivel comoção algumas orações; os olhos fecham-se lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, solta do seu veneravel corpo, subia aos céus a receber o premio das suas virtudes, descançando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gosará a bemaventurança com que Deus premeia os seus eleitos.