*
* *

É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está recebendo o premio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dôres humanas, e que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto{12} fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa devoção.

CAPITULO IV

Trasladações

I

Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fôsse trasladado para a Sé de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de El-rei procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em pratica o desejo ali expresso.

Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de El-rei.

O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo dum sol abrazador.

As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente da decomposição do cadaver.{13}

Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação da sua omnipotencia.