Alem d'isso a refórma nésta parte tambem se não aprezentará menos justificada a quem a quizér considerar nas diferentes ipótezes; como passa a mostrar-se a respeito das principais d'entre élas.

A comissão votou unànimemente a supressão das letras nulas; e julga que com razão o fês. Tais letras são motivo de grande confuzão e portanto um grande embaraço; porque todas élas, em circunstáncias idênticas, umas vezes são nulas, outras não (menos as dobradas que o são sempre), sem ser possível dar régras que satisfáção, para indicar quando o são ou deixão de ser. E tem unicamente valor etimolójico,—valor esse iluzório e sem importáncia, porque a etimolojia não fica perdida com a sua supressão, como não se perdeu a d'éssas m[~u]ito numerózas centenas de palavras cujas raízes se áxão alteradas; em quanto que os embaraços a que dão cauza, são um mal m[~u]ito grande e m[~u]ito real e pozitivo.

Por contemporizar com ábitos e sucètibilidades, póde aceitar-se o adiamento da supressão do—u—-nulo, visto poder dar-se régra cérta que indique a sua nulidade; porque depois de—q—nenhuma outra razão póde motivar a sua conservação. Pois se os latinos o uzávão, pronunciávão-no, como oje o pronuncíão sempre os italiânos; e se os francezes, e até os espanhóis, o emprégão sem o pronunciar, é por um méro caprixo que não devemos seguir.

Por esse mesmo motivo a comissão lembrou-se de se adiar tambem a supressão do—h—inicial, mas por fim não lhe pareceu justificada éssa rezolução. Paréce provado que o—h—, que nunca foi uzado pelos gregos, éra para os latinos simplesmente sinal d'aspiração. Por isso juntávão-no ao t, ao p e ao c, para reprezentar téta, fi qi, consoantes mudas aspiradas do alfabéto grego, e tambem ao r nas palavras tomadas do grego em que ésta letra éra aspirada; e para que fosse aspirada a vogal seguinte, o empregávão no começo das palavras,—razão por que escrevíão por ezemplo hora, palavra tomada do grego onde éra ora. E assim compreende-se que os francezes o empréguem no começo d'aquélas palavras cuja primeira vogal aspírão, e ainda se compreende o seu emprego em espanhol, visto uzar-se a aspiração respètiva em algumas províncias do reino vizinho; mas nós que não aspirâmos nenhuma vogal inicial, é lójico que suprimâmos esse inútil sinal d'aspiração, evitando os embaraços que rezúltão do seu emprego.

A comissão, a propózito da supressão do—h—no vérbo haver, discutiu os inconvenientes da anfibolojia produzida pelas omonímias; assim como discutiu a ezistencia do—h—nas interjeiçõis hui ah oh, onde paréce aver quem admite aspiração. Óra, quanto á anfibolojia, impórta considerar que as omonímias que proviríão da refórma, são nada em comparação das que ezístem já na língua sem ninguem sentir os inconvenientes da supósta anfibolojia d'élas rezultante; que na pronúncia não á meio d'evitar esses inconvenientes, que alguem se aprás em recear; e que na escritura, melhór que na fala, indica o sentido qual é a significação da palavra, se ésta a tem dupla ou múltipla: se por ezemplo se escrever—ás á, avias avia, avíão, ouve—, em vês de—has ha, havias havia, havião, houve—, ninguem desconhecerá quando respètivamente se trata do vérbo haver, ou da craze da prepozição a com o artigo as a, do vérbo aviar e do vérbo ouvir. Em quanto ás três interjeiçõis, no cazo de decidir-se que á aspiração, seria melhór indical-a pondo na vogal o espírito áspero dos gregos—uma vírgula ás avéssas; mas a comissão não vê razão por que a aja, nem lhe paréce que aja com efeito, e tão pouco julga conveniente avêl-a, porque a sua aspereza tornaria a interjeição menos eufónica.

Em fim, a respeito do fato da nulidade das letras, sucitárão-se dúvidas quanto ao—x—, e ao—s—no meio das palavras. Porem um ezame reflètido móstra, que só em pronúncia afètada se fás ouvir o som sibilante que éssas letras reprezentaríão nas palavras respètivas, e que éssa pronúncia é forçada e tórna a palavra mais áspera, sendo por isso menos confórme ao jénio da língua. E o fato do—s—se não axar em documentos das primeiras éras da língua, e em livros de épocas menos remótas (de Càmõis, Fr. Luís de Souza, J. Freire de Andrade, Padre Vieira, etc.), e de não se empregar oje mesmo em várias d'aquélas palavras, é próva de que éssa letra tem sido e é nula na pronúncia jeral.

No que tóca á substituição de letras a fim de se xegar á unidade de reprezentação das consoantes, cumpre á comissão notar que, sendo éla reclamada pelo princípio fundamental da ortografia sónica, é ao mesmo tempo ezijida pela necessidade de remover os obstáculos que a reprezentação múltipla oferéce aos que aprêndem o português. Os dois sons de—c—de—g—e de—r—, os três de—s—e os cinco de—x—, são um martírio para professores e alunos d'instrução primária. E não á razão para que continuemos a suportar éssas dificuldades.

Com efeito, tendo o—j—que é sinal onomatópico da articulação—je—, por que não avemos d'empregar sempre esse sinal a reprezentar ésta articulação? Tendo da mesma sórte o—z—, sinal onomatópico de—ze—, não dis tambem a razão que reprezentemos sempre ésta articulação por aquele sinal? Dando nós ao—c—um nóme que é onomatópico da articulação—ce—, e empregando-o só por eicèção a reprezental-a, ao passo que o empregâmos a reprezentar a articulação—qe—no màiór número dos cazos tendo tambem para ésta um sinal onomatópico, não averá nisto um duplo absurdo? E a anomalia dos cinco sons do—x—é tambem injustificável. Os gregos tínhão ésta letra, a que atribuíão uma só reprezentação; os latinos adòtárão-na, e reprezentávão com ela a mesma articulação que os gregos. Por isso a comissão entende, que deveremos empregal-a unicamente a reprezentar a articulação da qual é para nós sinal onomatópico; nos demais valores déve ser substituída pelos respètivos sinais. E o mesmo julga a respeito do—c—; assim como julga que a boa razão manda que—s—fique reprezentando sòmente o seu som sibilante, que oje reprezenta talvês 99 vezes sobre 100.

A todas éstas substituiçõis só se póde objètar com a razão estimolójica, mas éla não reziste a um ezame reflètido. A comissão aprecia a etimolojia no que vale; não póde porem esquècer o que reclâmão outras consideraçõis, á frente das quais está a incalculável vantájem das estraordinárias facilidades que d'aquélas substituiçõis advirão a quem aprende o português. Alem d'isso a etimolojia não fica perdida; e como já foi indicado, o que se tem a fazer, é nada em comparação do que já se fês: ólhe-se para a série d'ezemplos das alteraçõis operadas, que acima se aprezentou, e ficar-se-á convencido de que as substituiçõis que se propõi e é precizo realizar, são uma simples emitação.

Quanto á criação de um carátèr privativo para um dos sons de—r—, e á reprezentação de—lhe—, assim como de—nhe—, por um carátèr único, parece-lhe que por si mesmas se justifícão; e mais justificada ainda se deverá julgar a criação dos nóvos caratéres para as vogais acentuadas: bem como julga irrecuzável a vantájem, que os que aprêndem a ler, axarão em sêrem os ditongos reprezentados por caratéres especiais. E do mesmo módo lhe paréce, que dispensa justificação a eliminação do—ph—; assim como a do—ch—em qualquér das suas duas reprezentaçõis (onde nada justifica o seu emprego), atentos os embaraços que ele prodús.