Sabe que á m[~u]ito quem não queira admitir o ditongo—ou—, dizendo que nos cazos respètivos o som vogal é o de—o—fexado; mas não crê que seja assim, pois axa notável e óbvia diferença de som nas primeiros sílabas de coro lobo e últimas de avô Pàssô por ezemplo, e nas de couro louvo, lavou passou: no primeiro cazo á som de—o—fexado; no segundo, de ditongo—ou—, m[~u]ito mais eufónico e agradável que aquele. Bem como sabe, que á quem uze este ditongo em lugar do—o—fexado nos cazos como bôa corôa, sôa pavôa; mas julga que este uzo déve rejeitar-se por não ser o jeral.
E sabe igualmente que se tem sustentado, que nos ditongos nazais só a prepozitiva tem entoação nazal; éssa ideia porem, a seu ver, é errónea,—os ditongos nazais não se fórmão juntando uma vogal oral a uma nazal anterior, mas sim dando entoação nazal a um ditongo oral.
Assim como, a este propózito, déve notar que não desconhéce cértas pronúncias, sobre as quais xama a atenção para que sêjão emendadas, por viciózas que são segundo crê. Por um lado alguem sustenta, que—e—predominante, antes de—lh—, tem som de—a—fexado na pronúncia jeral, e se dis por ezemplo cançâlho sâlha abâlha e não concêlho sêlha abêlha (o que éla não considéra aceitável); bem como sustenta que «em todas as sílabas não acentuadas é o—a—fexado, eicéto nas finais em que é mudo». Por outro lado, á quem tróque o—e—fexado por—ei—antes de—j lh nh—, dizendo por ezemplo igreija teilha leinha—em vês de dizer igrêja têlha lênha.
A comissão não póde crer que o primeiro—a—de batalha, por ezemplo, seja diferente do último, ou que sêjão divérsos os últimos aa de sáfara. E do mesmo módo, entende que não á motivo para que o—e—predominante, que póde ser fexado antes de todas as outras consoantes, o não póssa ser antes de—j lh nh—em cértos cazos, e se pronuncie—ei—contra a pronúncia jeral.
E cumpre notar ainda outra pronúncia que fora bom corrijir: é a do ditongo—ão—nos nómes que oje fórmão o plural em—ões—, e nas respètivas vózes dos vérbos. M[~u]itos pronuncíão bordão tacão timão portão amarão, etc., como se o ditongo fora—ou—nazalado; óra este ditongo é m[~u]ito menos eufónico e bélo do que o outro, pelo que déve ser rejeitado: e assim o ditongo—ão—déve sempre pronunciar-se como se pronuncia em mão irmão tão cão.
A propózito d'isto dirá tambem, que pensa ter ido confórme com a pronúncia jeral, considerando que em—ex—inicial—e—não reprezenta—ei—senão onde é sílaba predominante como em exito, ou onde ao—x—se ségue—ce ci—como em exceto excitar, e no cazo de ex-ministro ex-deputado, etc. Próvão-lho a sua observação, as m[~u]itas palavras onde o—x—já foi substituído, como izenção estranho espremer, etc., etc., e a opinião de gramáticos àutorizados, que dízem que a pronúncia é ezacerbar ezemplo ezistir ezórdio.
Por último dirá, que o emprego do til como único sinal de nazalidade, m[~u]itíssimo racional a todos os respeitos, não lhe paréce que póssa ser rejeitado; até porque se recomenda pelas facilidades que trará á leitura do mànuscrito,—vantájem que advirá igualmente da supressão do—u—e demais letras nulas.
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Com relação a consoantes, a comissão julga que as refórmas que propõi, são tambem de todo o ponto justificadas. A evolução por meio da qual se constituiu a língua como oje a falâmos, operou-se suprimindo e transformando por todos os módos e em todos os sentidos. Móstra isso uma infinidade de palavras, e bástão a proval-o estes poucos ezemplos: de actio c[oe]sius crates faba ficus lupus lutum nunquam pluvia pr[ae]da quinque ratio, angelus bubulcus coquina cymbalum cytisus germanus mespilum miscere pustula sacellum sanare vagina videre, apotheca auricula caveola invidia quiritare infundibulum, fizémos acção gazeo grade fava figo lobo lodo nunca chuva presa cinco razão anjo bifolco cozinha timbales codeço irmão nespera mexer bostella capella sarar bainha ver adega orelha gaiola inveja gritar funil.
Óra, éssa evolução está pela màiór parte já tambem operada na escritura. As alteraçõis propóstas são o seu complemento; e constituirão os dois grandes progréssos—a unidade da reprezentação dos sons e a conformidade da linguájem escrita com a linguájem falada—reclamados pela necessidade de tornar fácil ao povo a aquizição da instrução que se quér que ele tenha, poisque com eles se aprenderia a ler em m[~u]itíssimo menos tempo do que oje se gasta. E o pouco que résta fazer, está àutorizado de um módo irrecuzável pelo m[~u]ito que se axa feito.