Sucéde outro tanto com—u—, que é inquestionàvelmente reclamado pela pronúncia. Á parte os cazos de—o—reprezentando—u—no princípio e meio das palavras, em que algumas vezes se ofende a etimolojia com a substituição, temos a considerar o—o—da sílaba final, que é o cazo mais importante, com cuja substituição não será ofendida e em inúmeros cazos será dezafrontada. Dízem jeralmente que os nómes portuguezes, derivados do latim, se formárão do ablativo e não do nòminativo, e que portanto em filho reino, por ezemplo, a raís é filio regno e não filius regnum. Acreditâmos que é assim, e concedemos que por conseguinte escrevendo filhu reinu se ofende a etimolojia; mas em tal cazo escrever pôrtu cúrsu é dezagravar éssa etimolojia, porque éra terminado em—u—o ablativo de portus cursus; assim como será dezagraval-a, se escrevermos por ezemplo amámus bebêmus vestímus, porque no latim tínhão—u—na sílaba final todas as vózes da 1.^a pessoa do plural dos vérbos, o qual nós substituímos por—o—. Nóte-se porem que, escrevendo filhu reinu, não se ofenderá a etimolojia; averá a diferença da derivação se fazer do nòminativo e não do ablativo. Donde se conclue que a substituição do—o—pelo—u—, não será uma ofensa mas um dezagravo da etimolojia, ao passo que é uma omenájem á pronúncia.
Ségue-se pois que as duas substituiçõis são justificadíssimas; e se a comissão propõi o seu adiamento, é só por evitar a impressão desfavorável que receia que produzíssem, sobre tudo pelo aparecimento m[~u]ito freqüente do—u—na sílaba final.
Alguem por ventura estranhará a eliminação do—y—. Tôdavia para justifical-a basta dizer, que éssa letra não reprezentava em grego o som—i—, mas sim um cérto som de—u—. Se nas respètivas palavras se mudou o som reprezentado, é racional que se mude o sinal reprezentativo. É em verdade singular, que se xame—i—grego e se uze como—i—, o que éra a letra—u—dos gregos.
Quanto á acentuação, a comissão está quázi cérta de que as suas indicaçõis não serão vistas sem alguma estranheza; porque, como os latinos não uzávão dos acentos, entende alguem que tambem os não devemos admitir.
Com tudo, se eles fôrão proscritos do latim, os gregos empregárão-nos superabundantemente. Álem dos acentos avia em grego os espíritos. É m[~u]itíssimo rara a palavra grega que não tenha acento em uma das três últimas sílabas; toda a vogal ou ditongo porque principia uma palavra, tem algum dos espíritos; nos ditongos põi-se o espírito e o acento sobre uma mesma vogal.
Vê-se portanto, que os gregos acentuárão tudo e que os latinos não acentuárão nada. A comissão julga pois, que faremos bem, se seguirmos um meio termo, acentuando tanto quanto for precizo; e por isso paréce-lhe que não deve ser rejeitada a sua propósta, tanto mais que as quatro eicèçõis poupão uma infinidade d'acentos, e se facilita assim a tranzição para o uzo dos caratéres nóvos propósos na régra 14.^a: d'este módo, por meio de acentos e de régras que os dispênsão, fica determinado o valor de cada vogal. E com éssa inovação bem simples dezaparecerá uma grande dificuldade que os estranjeiros encôntrão ao aprender a nóssa língua, e que aos mesmos nacionais é grande embaraço para aprender, e para ler corrètamente.
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Em fim, quanto ao número dos sons vogais, cumpre á comissão dizer o seguinte.
Admitiu o som de—a—fexado, por entender que o—a—predominante antes de—m n nh—tem esse som segundo a pronúncia mais jeral, com eicèção da terminação amos do pretérito dos vérbos em—ar—. O som abérto que m[~u]itos lhe dão, e que ele tem antes de todas as outras consoantes, é mais eufónico e mais bélo, mas uza-se menos; e a opinião dos que dízem que ésta e as outras vogais, naquele cazo, tem todas som nazal menos—e o—abértos, não paréce á comissão que póssa nem deva ser aceita.
Não ignóra que alguns úzão—e o—abértos com entoação nazal, dizendo escóndes escónde rómpes rómpe, véndes vénde séntes sénte; mas entende que ésta pronúncia não déve prevalecer, embóra—e o—abértos de entoação nazal sêjão menos fanhózos e portanto mais eufónicos que—e o—fexados, porque a pronúncia contrária é a do màiór número e a supressão dos dois sons nazais é uma simplificação apreciável.