LIII

Sentira-se uma bulha retumbante,
E uma grita de vozes, arremedo
De rufar de tambor, e mal toante
Um pifaro tocar…—É o Macedo!—
E ei-los a correr no mesmo instante
Como um bando de gamos, que de medo
Fugira ao caçador, e cada qual
Vae bradando:—ahi vem a mancipal!—

LIV

Esgueiram-se em differentes direcções,
Deitando pelo chão mesas e bancos;
É batalha campal de provisões,
De azeitonas e peixe, queijos brancos;
Quebraram-se as canecas, canjirões,
Em quanto vão saltando p'los barrancos;
E assim se escaparam por milagre,
Como foi na campanha do vinagre!

LV

Fôra o caso que á tarde o rapasio,
As lides de Mavorte simulando,
Em panellas ferira som bravio,
A berrar pela estrada pelejando.
A tal bulha sentiram calefrio
Os valentes, e foram-se safando;
E assim com este logro se destroça
O meeting, e soffrendo cruel troça.

LVI

Entrementes debanda a philarmonica,
Allugada p'lo grande directorio,
Que devêra tocar a marcha sonica
Ao romper do comicio o grão vivorio;
É que o mestre afinára a diatonica
Aos hurrahs e estallar do foguetorio;
Mas temendo os bêmoes entram em lucta,
Apressou o andante co'a batuta.

LVII

É noute; dorme tudo, e o mesmo gaz
Nos bicos dos candieiros em Lisboa;
E a lua sorrateira, e contumaz,
Espevita o morrão sobre a patroa:
—«Inda bem; a cidade está em paz!
Disse ella,—foi ligeira a macacôa.
Adeus té ámanhã, que torne a ver-vos;
Vou tomar chá de tilia p'ra os meus nervos.»