XLVIII
—«Palavra seu aquelle, eu tambem fallo,
Olé se fallo, eu cá sou cidadão…
Escusam de gritar, que me não callo…
Não me empurrem, já disse… qual pifão!
O rei no seu governo, é como um gallo,
Como um gallo… oh! que grande reinação…
Fóra co'a brincadeira… viva o rei!
Oh! dominus vobiscum, agnus Dei.
XLIX
Em tempos mais antigos, qual o anno
Me não lembra, nem d'isso agora trato…
Tivemos um pastor republicano.
Que pandigo! o tal luso, o Viriato!
E D. Fuas Ropinho, que magano…
O rei dos valentões, Prior do Crato!
Que façanhas fizeram! que prodigio
Armados de cacete e bonet frigio!»
L
—«Presidente, este typo surdo mudo
Por signaes o seu voto ora pretende
Declarar; é teimoso, é cabeçudo.»
—«De mimicas aqui ninguem entende!
Subjuguem-n'o, e ferrem-lhe um cascudo
E ponham-o lá fóra, que se emende.»
—Egualdade, onde estás!—protesta um gebo;
—Eu tambem, diz um gago, a não concebo.—
LI
E n'isto no casaco a assadeira
Lhe fincara deveras as fateixas;
Acode a socorrel-o a taberneira,
Duas taponas lhe ferra nas bochechas.
O peixe estremeceu na frigideira,
A cabeça escondendo nas ventrechas,
E o sacrista berrando pela guarda
Acode o regedor n'esta bernarda.
LII
Apitam, correm cabos de policia;
O povo prorompeu n'uma assuada.
O regedor procura com pericia
Acalmar o tumulto, mas baldada
Lhe fôra a diligencia, se a milicia
Lhe não desse a provar do peixe-espada;
Então o taberneiro por esperto
Começou a gritar: «a tropa é perto!»