XLIII
«Eu cá sem ser pronostica, arrenego
Do tempo, que para os reizes vae bicudo;
Mas elles teem olhar tão peticego,
Que só vêem as cousas por canudo.
Pois eu a governar punha no prego
As colonias, nação, vendia tudo…
E vispiré, Ignacia! co'a aragem
Tingava-me… adeusinho… boa viagem.
XLIV
A rainha, que grande presumida!
Recostada no caleche toda aquella,
E eu cá p'ra ganhar a triste vida
Giro em trocas, baldrocas d'uma adella,
Eu se andasse como ella, bem comida,
Era sucia, e só qu'ria dar á trella:
Onde houvesse uma tasca de bom vinho
Aos amigos pagava um martellinho.
XLV
A communa… oh! que grande regaleza!
Tudo egual, e ninguem soffrendo fome!
Descongela-se a neve da pobreza,
O rico diz ao pobre:—Pegue, tome!—
Repartem entre si toda a riqueza,
O trabalho a ninguem rala e consome,
Cada um faz e diz o que quizer,
E troca de marido e de mulher!
XLVI
Co'os demos! venha a hora bemfazeja
Em que gose o mudar meu duro fado;
De andador posto á porta d'uma egreja
Eu visse o meu João ser deputado.
É bem triste o viver só da bandeja,
Pedir p'ra o purgatorio, e ser penado,
E clamar ao alvor d'um triste dia:
Levanta-te, João… vae p'ra a bacia!.»
XLVII
Já roucos de gritar com vozes graves,
A republica acclamam grandes vivas;
Nos bosques se escondiam meigas aves,
Dos prados, pela bulha, fugitivas,
E as fontes seus murmurios tão suaves
Suspendem entretanto por esquivas;
Só ao longe, no auge do sussurro,
Coáxa a triste rã, orneja o burro.