XXXVIII
—«Em peitos lusitanos entrar póde
O desamor da patria! e assim quereis
Como uma carga vil, que se sacode
D'esta terra expulsar os nossos reis?!
Se a protecção de Deus vos não acode
Como outr'ora em Ourique, inda vereis
Este paiz mimoso dos heroes
No mundo não valer dois caracoes.
XXXIX
Portugal, que entre todas as nações
Se distingue fiel á dynastia!
Que nobre de proezas, galardões,
No mundo inteiro houvera primasia!
Ha de hoje off'recer os seus brazões
Aos sonhos d'esta vã democracia,
Que elege e acclama por soberano
Este, aquelle, aquell'outro, um tal cicrano?!»
XL
—«Fóra, fóra! acabem dynastias,
Não queremos sustentar com sacrificios
Quem vive dos tributos, das sangrias
Que soffremos por tantos malificios;
Acabem agourentas monarchias!
Não queremos aturar mais supplicios:
A forma de governo mais humana
É sem duvida a que é republicana.»
XLI
—«Ah! senhor, por um instante me escutae:
Não posso concordar com tal aviso!
Um mau rei é verdugo, mas é pae
O que governa em paz, e com juizo:
O arbitrio de muitos sempre cae
Na desordem fatal, em prejuizo
Da nação que mais cedo, ou que mais tarde
Soffre a guerra civil, torpe e covarde.»
XLII
E logo d'improviso uma matrona
De face bronzeada, enorme buço,
Gritou o—Viva a plebia, que desthrona
Os reizes, que padecem mau influxo;
É mettel-os a todos n'uma fona,
Assim o declaro sem rebuço.
É deitarmos a terra esses colossos:
Eu sou republicana até aos ossos.