XXXIII

Bem nos basta aturar o rei do dia,
Que d'inverno a soslaio nos visita,
E de verão nos abrasa em calmaria.
Todo o rei é verdugo e parasita,
Que as entranhas do povo, qual harpia,
Molesta d'extorsões, opprime, irrita;
Por este decilitro vos protesto
Que o governo do rei é o mais funesto.

XXXIV

Vêde desgraça tanta… esses pedintes,
Co'os filhinhos ao collo as tristes mães,
E nós d'essas lamurias sendo ouvintes
Sem ter para lhes dar soccorro e pães;
Da miseria chegaram aos requintes
Que os ossos vão roendo como cães
E os ministros reunem na Ajuda
A pedir á nação que lhes acuda.

XXXV

Eu vos juro, valentes patriotas
Que buscaes alluir a monarchia,
Que havemos de enforcar os agiotas
E aos ricos… oh! que grande montaria.»
—«Muito bem! bravo! viva!» Entre risotas
Festejavam do povo a sob'rania,
E todos entoando a Marselhesa
Bradaram:—«Bota abaixo a realesa.»

XXXVI

«A republica só, heroica e pura
Sem esses comilões e sem tributos,
É governo, que aos povos dá ventura.
Vêde gregos, romanos, Solons, Brutos
Que varões de coragem, de lizura!»
—«Ó Zé, se fallou agora em brutos,
Disse um d'elles, entendo em cortezia
Que pedisse licença á companhia.»

XXXVII

—«Tenho odio fatal, e tão profundo,
Aos reis todos, e á sua parentella,
Que juntando-me aquelles, que ha no mundo,
Eu guisára uma farta cabidela,
Ou então do oceano bem no fundo
Armava-lhe um tremalho, uma esparrella;
E se fossem tomar banhos no mar
Apanhava-os, e punha-os a escalar.»