XXVIII

Portugal anda ha muito n'estas crises;
Na terrivel pressão de tantas mós,
Vae moendo farinha p'ra os felizes
Que contentes lhe cantam—Venha a nós!
Mas se um dia a revolta alçar a voz
Em delirios cruentos, nos paizes
Onde endémica lavra a devorite,
É p'ra logo applicar-lhe dynamite.»

XXIX

«Cidadão, vou entrar n'esta palestra
E mostrar-vos, que a natureza é sabia:
O cortiço é communa, a abelha mestra
De governo perfeito a ideia acaba-a.
Economica, vêde, não sequestra
Com tributos, ardis, com manha e labia
Do seu povo a uberosa dotação;
Aprendei o que ha bom n'esta lição.»

XXX

—«Bravo, Zé Mathias… é bem dito!
O rei é um chupista… e apoiado…
Diz elle que é divino… é um maldito,
Que as rendas dizimando vae do Estado.»
Com palmas um cantava o pirolito,
E outro com a banza bate o fado.
—«Ordem, ordem! berrava o presidente;
Assignem o protesto, que é urgente.»

XXXI

«Se em nascimento e morte são iguaes
Os homens, o que importam distincções?
Porventura tem rei os animaes,
Duques, condes, marquezes e barões?
Tem ministros, soldados, generaes?
Um thesouro com praga d'inscripções?
Ha fórma de governo, que reuna
Maiores bens, do que a provida communa!

XXXII

Silencio… Não tem ricos, não tem nobres;
Permitte a cada um o que é preciso.
Portugal, é mister, que tu recobres
Teus foros sociaes, sem prejuizo
Dos que nascem… nem haja humildes, pobres;
Sejam nossos brazões: honra, juizo;
A terra fique livre, os bens communs,
E p'ra todos acabem os jejuns.