XXIII

Que futuro medonho nos aterra!..
Funccionarios, ministros, titulares
Absorvem e devoram nossa terra!
Tropeçamos ahi co'os militares
Sem termos nem sequer sombras de guerra,
E sustentamos, nós, os populares
Um deficit a crescer, e os publicanos
Tributos a lançar todos os annos!

XXIV

E caem os partidos, sempre os mesmos
Do governo os mandões, a mesma escola;
O estado a soffrer graves tenesmos,
Só nos resta o pedirmos inda esmola;
A fazenda consome-se em torresmos,
E vâmos n'um recúo-caranguejola;
Somos ricos e grandes de comedia.
A triste bancarota alguem impede-a?

XXV

O supremo poder nas mãos d'um homem,
Que póde ser um tolo, ou um tyranno!
A historia dos reis, que os tempos somem,
Consultae, e tereis o desengano.
Providencias energicas se tomem
Contra o nosso porvir, e o grave damno
Que os despostas causaram a seus povos;
Meus principios são justos, e são novos.

XXVI

É um rei liberal, como é a pella
Na mão d'um jogador; do ministerio
Espera para a rubríca a chancella
E faz o que lhe dizem, sem criterio
Se a coisa é de momento ou bagatella;
Pois se quer governar, sem refrigerio
Dos partidos depostos, soffre assomos,
Qual juiz de arraial co'os seus mordomos;

XXVII

Sempre ás cristas, e sempre engalfinhados,
Cubiçando os poleiros das nações,
De ministros, de pares, deputados,
De camaras, de empregos; ambições
Porque morrem de amor e de cuidados,
Não lh'importam… (que grandes maganões!)
As venturas do povo… em palavrorios,
Sobem, descem com vivas, foguetorios.