XVIII
«É falso! não consinto se pretenda
Menoscabar quem tanto se acrisola;
Mormente o bom ministro da fazenda,
Que, macio nos tributos, não esfola.»
—«Fóra! fóra! seu traste d'encommenda!
Gritou o povoreo, este é granjola!»
E o sucio, por temer as consequencias,
Escondeu-se nas mudas reticencias.
XIX
—«Eu sou republicano cá de dentro!»
Disse um tal agarrando um pedregulho.
—Fóra, fóra!—clamaram lá do centro.
Crescera a vozearia e o barulho:
—«Ah! safa, seu canalha, que o desventro!
Já se calle, ou a boca lhe atafulho!
Lhe brada, faca em punho um vil fadista:
Acabemos com a raça realista.»
XX
Tal quando ronca o mar em tempestade,
Revolvido por grande furacão,
E em montanhas de espuma corre, invade
Ainda a mais alt'rosa embarcação;
Ou quando no aduar em feridade
De assalto abrindo as garras o leão
Percorre a empolgar seu inimigo,
Assim o orador se viu em p'rigo.
XXI
Mas n'essa confusão o paroleiro
Se esgueirava, fugindo com prudencia;
A mesa assalta um lépido barbeiro,
Que sóbe desde logo á presidencia.
Muitos gritam:—«Os reis custam dinheiro
Que sae dos nossos bolsos; é d'urgencia
Acclamarmos da plebe a sob'rania.»
E de vez foi crescendo a gritaria.
XXII
—«A palavra! a palavra, cidadão!»
Todos pedem, mas logo o presidente
Tocava a campainha, que o tacão
Lhe impede ser ouvido d'essa gente.
—«Ordem, ordem!… silencio! á votação
Vou propor, se o club m'o consente,
Artigos do contrato federal,
Que abula a realeza em Portugal.