Com o tempo tudo corre, tudo pára,
Mas só aquelle tempo que he passado,
Com o tempo se não faz tempo presente.

* * * * *

Ainda que huma sabia Constituição Nacional não abrangesse (como abrange) hum bem geral composto de diversos, e infinitos bens, bastava aquelle de constituir hum sabio, e digno Codigo, que dê a Deos o que he de Deos, a Cesar o que he de Cesar: Em suma:—Que já mais possão ter as Leis as interpetrações que lhes derão (posto que com ironia) Solon, Anacharsis, e o sabio P. M. Fr. José Suppico, como abaixo transcrevemos.

Solon, e Anacharsis, comparavão as Leis ás teas de aranha, porque assim como estas só prendem algum mosquito, ou bichinho semelhante, e os maiores as rompem, e zombão dellas, assim tambem as Leis só opprimem, e castigão os humildes, e pobres; e os grandes as despresão, e fazem tão pouco caso dellas, que nem ainda as tocão com o dedo!

O muito Reverendo P. M. Fr. José Suppico: Repara, ou pondera no empenho que Herodes mostrou em querer tirar a vida a Christo, e não o esperar no Templo, quando o levassem a apresentar a elle. Para que se cança Herodes em matar innocentes, em perseguir justos, em dobrar sentinellas, e em povoar estradas? Espere no Templo a Deos Menino. Mas oh que andou Herodes como Principe; e tinha ouvido dizer aos Magos, que Christo nascia Rei: E nesta supposição diz entre si: Não tenho que me cançar em procurallo no Templo; he Rei? he Grande? Pois não ha de ir ao Templo, porque se o ir ao Templo he observancia da Lei, estes não guardão as Leis, quebrão as Leis.

Torno a repetir segunda vez: Quando huma sabia Constituição não nos trouxesse outro bem, mas sómente aquelle de pôr o Ministro n'huma severa restrincção de dar a Deos o que he de Deos, e a Cesar o que he de Cesar, isto he: Virtude para o premio, Vicio para o castigo, serem em suma estes os dois pontos fixos das suas deliberações sem aquella distincção que todos nós sabemos, de que tanto se vangloriavão os Nobres (que deixão de o ser huma vez que pretendem torcer a Vara da Justiça) e se lastimavão os plebêos!

Não precisa ser grande Juris-Consulto para saber (quando se não queira fechar os ouvidos á vos da razão, ou do interesse!!) que o premio he dado—Á Virtude—e o castigo ao Crime—que o plebêo depois de praticar huma virtude, he nobre, e que o nobre depois de praticar huma vileza he plebêo. Esta verdade inegavel confessa mesmo o Rustico applaude, e elogia o Sabio, e o Poeta canta:

*SONETO.*

Pobre, ou rico, Vassallo, ou Soberano,
Iguaes são todos, todos são parentes,
Todos nascêrão ramos descendentes
Do tronco antigo do primeiro humano.

Saiba quem de seus titulos ufano
Toma por qualidade os accidentes,
Que duas gerações ha só differentes,
Virtude, e Vicio tudo mais he engano.