VI. A liberdade politica, he a que tem cada individuo da sociedade, não para executar quanto lhe fizer emprehender huma fantezia selvatica; não foi para isto, que nas primeiras convenções se acordárão os homens entre si de hum deposito commum de suas forças relativas; mas he para gozarem toda a segurança de quanto lhes pertence, sem dever ser perturbado de outro seu igual, e similhante Feliz Estado, em que só se depende da Lei.
VII. A hum que invejava a fortuna de Aristoteles, por comer á meza com
Alexandre, disse Diogenes: Melhor he a minha, pois Diogenes janta quando
Diogenes quer; e Aristoteles quando quer Alexandre.
VIII. Non bene pro toto libertas venditur auro, disse Horacio. E o judicioso Falcão introduz a hum rato muito invejoso de ver a outro em huma ratoeira rodeado de muito comer, e campo mui espaçoso para passear. Assim he lhe respondeo elle, porque não me faltão iguarias, e este palacio tão formoso para me divertir; mas amigo tomara-me eu daqui cem legoas.
IX. Diogenes, perguntado, que cousa havia melhor na vida, respondeo, que a liberdade: libertas.
* * * * *
Se nós nos podêmos chamar felizes por observar-mos depois de hum Quadro tão espantoso de passados males, hum tão brilhante de bens presentes, e futuros bens; com melhor razão nos poderiamos chamar felicissimos se podessemos recuperar a perda deploravel do objecto que tratão os dois ultimos versos do maravilhoso Soneto de hum dos nossos sublimados Engenhos, que abaixo transcrevemos, que póde servir de quadro ás passadas, e presentes circunstancias em que se vio, e vê Portugal.
*SONETO.*
Com o tempo o prado secco reverdece,
Com o tempo cahe a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo pára o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece.
Com o tempo hum louro morre, outro florece,
Com o tempo hum he sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece.
Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquilla hum grande Estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.