É esta a primeira edição critica das Poesias de Francisco de Sá Miranda, o Horacio e o Seneca portuguez, como lhe chamaram os contemporaneos, o reformador do Parnaso portuguez no seculo XVI.

Foi necessario que se passassem mais de 300 annos (Miranda morreu em 1558: a primeira impressão de parte das suas obras tem a data de 1595) para que apparecesse uma edição critica, indispensavel todavia desde o primeiro dia. E ainda assim não a devemos a nenhum dos nossos—como a nenhum dos nossos devemos a admiravel edição do Cancioneiro de Garcia de Resende (de Stuttgard), a edição diplomatica do Cancioneiro do Vaticano (publicada em Halle pelo italiano Monaci) e tantos outros valiosissimos trabalhos sobre a nossa lingua e literatura, publicados, no decurso dos ultimos 50 annos, em Allemanha, Holanda e França. Uma senhora alleman, hoje portugueza pelo casamento, pessoa tão modesta como intelligente e laboriosa, e a quem a historia da lingua e literatura portuguezas tinha já a agradecer trabalhos, que, por passarem desapercebidos nesta verdadeira Caverna do Esquecimento, que é o Portugal de hoje, nem por isso deixam de ser de primeira ordem, emprehendeu e levou a cabo a restauração do texto do grande poeta moralista do seculo XVI, que até agora andava, mais do que o de nenhum outro dos seus contemporaneos, incerto, obscuro e deturpado. O trabalho corresponde plenamente ao muito que havia a esperar do saber e penetração da autora daquella notavel série de Estudos camonianos, que começaram a lançar alguma luz sobre o estado cahotico do texto do nosso grande lirico.

Dez annos de aturado trabalho; estudo comparativo escrupolosissimo das edições impressas e dos manuscritos ineditos; conhecimento profundo e quasi topographico da epocha, dos costumes, dos personagens, da lingua, das tendencias intellectuaes, uma extraordinaria familiaridade com todas as fontes do grande seculo; um grande e seguro sentimento da realidade historica; criterio penetrante e elevado, ainda no meio das minudencias a que tem de descer—eis o que representa esta edição critica, que não encarecerei chamando-lhe um modelo.

Não sei se entre os romanistas da Allemanha (penso sobretudo no sabio Storck) haverá algum que tivesse podido desempenhar-se do encargo, como se desempenhou a sr.ª D. Carolina Michaëlis: mas creio que afoutamente se póde affirmar que em Portugal, com excepção desta senhora, ninguem mais o poderia fazer, com igual exito. Não é este um facto bem singular?

Hoje, são os estrangeiros que estudam e estimam a nossa antiga literatura: nós não. A crescente e hoje quasi total desnacionalisação do espirito publico é o facto mais consideravel da nossa psychologia collectiva, nos ultimos 50 annos. Os da actual geração, pode dizer-se que, pelo pensar, pelo sentir, deixaram já de ser portuguezes. Ha por ahi muito rapaz intelligente e, a seu modo, instruido, que conhece mais ou menos Molière, Racine, Voltaire e até Rabelais e Ronsard, e que nunca leu um auto de Gil Vicente, uma canção de Camões, uma eglogla de Bernardim Ribeiro ou de Bernardes, uma carta de Ferreira ou de Sá de Miranda.

Os que conhecem um pouco intimamente a historia das revoluções portuguezas neste seculo (não fallo só das politicas) e têem reflectido sobre ella, acharão facilmente a explicação deste facto e, mais do que a explicação, a necessidade delle. Mas nem por isso deixa de ser cousa triste de considerar este abysmo de esquecimento, que se abre cada vez mais largo, entre o pallido, anemico e inexpressivo Portugal de hoje e aquelle seu grande ascendente, o heroico, o pittoresco e inspirado seculo XVI. A falta de sentimento nacional poderia, até certo ponto (no que diz respeito ao estudo da nossa antiga literatura) ser supprimida pelo sentimento historico, pela curiosidade critica e philologica, como dizem os allemães: mas a decadencia dos estudos historicos tem vindo acompanhando pari passu a decadencia do sentimento nacional sem que um ponto de vista mais largo, puramente scientifico, viesse, como em França, por exemplo, substituil-o efficazmente, para compensar aquella falta, pelo menos na esphera da intelligencia e do gosto.

Esse sentimento philologico (geral, humano, critico, não restricto e nacional) é o que caracterisa, entre todas as nações cultas, o espirito allemão. Na sua imparcial sympathia, tão vasta como a natureza humana, abraça ao mesmo tempo a antiguidade e os tempos modernos, as edades classicas e os periodos barbaros, o Oriente e o Occidente, todas as raças e todas as culturas. Essa sympathia exige uma só condição: a originalidade. Tudo quanto foi realmente vivo, quanto manifestou uma maneira sui generis de ser e de sentir, tudo quanto revelou uma face distincta da complexa natureza humana, tem direito á sua attenção. E é por isso que a erudição alleman se distingue por uma feição unica: é uma erudição viva. Houve erudição e eruditos: a curiosidade pelas cousas passadas é uma das funcções da intelligencia. Mas uma erudição que sente ao mesmo tempo que indaga, que critica e juntamente sympathisa, minuciosa e enthusiasta, indagadora e poetica; uma erudição que revolve montanhas de textos, datas, documentos, para descobrir, não factos seccos e mortos, mas a alma e a vida das cousas extinctas; uma erudição, se assim se póde dizer, inspirada, tal como nos apparece nesses heroes da philologia, os Boeckh, Welcker, Hermann, F. A. Wolf, Winckelmann, Grimm, Niebuhr, Creuzer, Otfried Muller, Ritschl e tantos outros; uma tal erudição era cousa desusada, e sem precedentes. Ella transformou a comprehensão da historia, fazendo circular uma vida nova atravez dessas cryptas dos seculos sepultos, onde a candeia fumosa da velha erudição academica apenas espalha uma claridade phantastica, quasi tão morta como as cinzas que ali repousam.

E ahi está porque vemos uma senhora alleman publicar estudos magistraes sobre o texto de Camões, publicar uma edição critica das Poesias de Sá de Miranda, preparando-se assim, durante annos, com toda a casta de subsidios linguisticos, historicos e archeologicos, para nos dar (ou antes, para dar á Allemanha) uma historia da literatura portugueza. Outros lhe darão a historia da literatura indiana, ou da chineza, da grega, da hebraica, da poesia dos Trovadores, das epopeias da Edade Media, que sei eu? pois não ha um canto do vasto mundo da historia, que escape á curiosidade ardente e penetrante da erudição alleman. A sr.ª D. Carolina Michaëlis internou-se pelo reino semi-classico do Romanismo e ahi conquistou para si uma provincia, bem mais famosa do que conhecida, ainda dos mesmos nacionaes: a lingua e literatura portuguezas.

Mas, dirão muitos, que necessidade havia de uma edição critica de Sá de Miranda? pois não ha por ahi tantas edições dos poetas Quinhentistas, desses famosos classicos, que pouquissimos lêem, é certo, mas que ninguem que se preze deve deixar de citar com veneração, e até póde romper no excesso de ter na sua bibliotheca?

Estes ignoram (nem admira) que esses veneraveis classicos são, até certo ponto, um mytho. Excepto o de Ferreira, nada ha mais duvidoso do que o texto desses desgraçados poetas. Das suas obras, a maior parte só se imprimiram depois da morte dos autores, nalguns casos vinte, trinta, ou mais annos depois. Imprimiram-se sobre copias manuscritas e geralmente copias de copias, e os editores não se esqueceram de juntar aos erros dos copistas, ou suppostos erros, as suas proprias emendas. A mesma paternidade das obras é em muitos casos duvidosa. Dos sonetos attribuidos a Camões pelo seu mais recente editor, o sr. T. Braga, boa terça parte não lhe pertencem ou são duvidosos. Tres eglogas de Bernardes são dadas geralmente como de Camões. Ha autos de Gil Vicente que pertencem muito provavelmente a outros autores. Poderiam multiplicar-se estes exemplos. Em geral, os poetas de maior nomeada absorveram pouco a pouco as composições dos menos famosos. E ainda se fosse só isso! Mas o proprio texto de cada uma das composições não offerece, em geral, a authenticidade sufficiente: a linguagem foi retocada pelos copistas ou editores; muitos versos foram substituidos. Junte-se a isto a variedade de lições, de edição para edição, de manuscrito para manuscrito (dos que ainda existem, e são bastantes) e comprehender-se-ha o que quiz dizer com a palavra mytho. Quiz dizer que quando cuidamos lêr Camões, por exemplo, podemos muito bem estar lendo Bernardes, ou Caminha, ou Bernardim Ribeiro, ou vice versa podemos tambem estar lendo alguns daquelles minores, que foram absorvidos na aureola dos cinco ou seis astros de primeira grandeza—ou podemos simplesmente estar admirando o parto engenhoso do editor do seculo XVII.