Os antigos editores portuguezes nunca primaram por criticos: se ainda é tão raro encontrar um que o seja! O editor portuguez era, antes de tudo um devoto: elle sahia á estacada, não para apurar um texto, o texto preciso, com as suas lacunas, defeitos ou erros, se os tinha, mas para levantar o seu poeta acima de todos os outros, attribuindo-lhe o maior numero possivel de composições e com a forma mais perfeita possivel. Se encontrava um papel velho, no canto de alguma bibliotheca devia ser do seu poeta: publicava-o. Se os versos eram maus, é porque a copia estava errada: emendava-os. E é assim que, de edição para edição, foi crescendo o numero de composições duvidosas, crescendo o numero de interpetações e emendas, com que o texto cada vez mais se ia depurando.

Dos poetas do seculo XVI, os dois mais maltrados pela devoção impertinente dos editores são sem duvida Sá de Miranda e Camões. Para este ultimo não sabemos quando chegará o dia da justiça (da justiça philologica, entenda-se) mas deve estar longe, a avaliar pela maneira porque os seus dois mais recentes editores, aliás benemeritos pelo trabalho e grande amor ao poeta, os srs. Visconde de Juromenha e Theophilo Braga, se houveram nas suas edições, que, em pontos de critica, correm parelhas com as dos mais devotos editores do seculo XVII. Talvez nunca chegue, a não ser que se metta nisso algum allemão. Sá de Miranda, ao menos, póde lêr-se com segurança no texto critico, admiravelmente discutido e apurado, da edição de Halle.

Sou pouco erudito, nem estou escrevendo um artigo para alguma Revista philologica, mas uma simples noticia para um jornal diario: por estas duas razões, não me posso alargar pela analyse do trabalho da sr.ª D. Carolina Michaëlis, entrando pela parte technica delle. Quero só observar ainda uma cousa: é que este volume de mais de 1000 paginas, e carregado de notas, é um livro interessantissimo. Porque? pelo que acima disse do caracter da philologia alleman. O sentimento historico anima toda aquella erudição; a comprehensão da epocha dá relevo e interesse ás indagações apparentemente aridas de datas, genealogias, etc. A cada passo encontramos uma circumstancia, um facto biographico, pormenores de costumes, que abrem repentinamente uma nesga do horisonte sobre aquella vida extincta e a fazem resurgir para a nossa imaginação. Quanto saber, mas saber intelligente, saber que diz e ensina, enterrado modestamente naquellas notas, que occupam as ultimas 200 paginas do volume! Essas notas, juntas com a magistral Introducção, constituem uma verdadeira monographia de Sá de Miranda. Com aquelles elementos poderia a auctora ter feito propriamente um livro de literatura, que se contaria entre os melhores e seria lido, citado e festejado. Preferiu a essas vaidades o cumprimento quasi religioso de um encargo, ha tres seculos por cumprir, fazendo ao velho Poeta o maior serviço que elle imploraria, se podesse erguer a voz do seu tumulo: a restauração do texto das obras. O bom Sá (como lhe chamavam no seculo XVI e depois) encontrou afinal um nobre espirito, que piedosamente e quasi filialmente escutou aquelle queixume de uma pobre larva e consagrou dez annos da sua vida para a satisfazer. O bom Sá deve agora dormir descançado no seu tumulo.

Bom Sá! Diz o velho biographo que, nos seus ultimos tempos, "com a magoa do que lhe revelava o espirito dos infortunios da sua terra se affligia tanto, que muitas vezes se suspendia e derramava lagrymas sem o sentir." Tenho scismado muitas vezes nestas lagrymas do poeta humanista da Renascença. E, não sei como, a minha imaginação approxima-as logo da tragica melancholia de Miguel Angelo, da nobre tristeza de Vittoria Collona, da misanthropia incuravel de Machiavel, da nuvem de desgosto e desalento que envolveu a velhice de quasi todos os grandes espiritos da Renascença. Tinha motivo de chorar o nosso Sá de Miranda, como tinham motivo de se entristecerem os seus illustres congeneres. É que elles presentiam todos, uma cousa sinistra: o abortamento da Renascença. Áquella immensa aurora succedia, quasi sem transição, o crepusculo nocturno: e elles, os videntes, devisavam naquelle crepusculo inquietador os movimentos de formas estranhas e sombrias, como de monstros desconhecidos, e ouviam passar vozes mais assustadoras ainda, vozes que cresciam formidaveis de todos os pontos do horisonte, sem se ver quem as soltava.

Ahi por 1550, o abortamento da Renascença era já visivel aos olhos dos que ainda restavam daquellas duas incomparaveis gerações dos promotores della. O Concilio de Trento entrara já na sua 6.ª sessão e era agora irremediavel a scisão do mundo latino com a Reforma germanica. Começavam as guerras da religião, que iam durar, numa furia crescente, perto de cem annos, destruindo nações inteiras. Os Jesuitas abriam os seus Collegios, onde o espirito da Renascença, sophismado, amesquinhado, pervertido, servia de capa á reacção. Por toda a Peninsula, fumavam e crepitavam as fogueiras da Inquisição. O Humanismo alado transformava-se em erudição plumbea, inerte. A Arte cahia da creação no amaneiramento. Um furor indiscriptivel, furor de disputas, furor de matanças, apossava-se da Europa e o pensamento livre, os sentimentos largos e humanos, a alta cultura pareciam prestes a desapparecer da face da terra.

Tudo isto viam ou previam aquelles grandes espiritos. Tinham sonhado salvar o mundo pela razão, e a razão parecera impotente, e o mundo desesperado appellava definitivamente para a sem-razão. Dahi aquellas incuraveis melancholias de uns, aquella desdenhosa misanthropia de outros; dahi as lagrymas do nosso Sá. Este antevia ainda outra cousa: a morte da patria. Aquelle ouro do Oriente parecia-lhe já (como depois se viu bem que era) um caustico sobre o corpo da nação, que lhe queimava, que lhe roia as carnes, até a deixar secca de todo, um esqueleto. Tinha motivo sobejo de chorar, o pobre poeta!

Sim, lembram-me muitas vezes aquellas lagrymas. Descubro mais de uma analogia entre aquella idade e a nossa. A razão não morreu, afinal. Soterrada, respirando apenas, resurgiu todavia. Sómente mudou de trajo e de nome: já não é Humanismo, como no seculo XVI: chama-se agora Philosophia, mas é sempre a mesma, é sempre a rasão. E nós tambem, filhos da Philosophia, sonhamos salvar o mundo pela rasão, dar-lhe ordem e paz com as leis eternas por ella reveladas. Mas o mundo parece novamente atacado de vertigem, parece appellar mais uma vez para a sem-rasão, para os instinctos bestiaes e para uma superstição mais monstruosa ainda do que as passadas: a superstição da força. A democracia á maneira que triumpha, perverte-se, parecendo preparar-se para marcar um despotismo sem nome, o despotismo anonymo da multidão, o achatamento universal.

Lembram-me as lagrymas de Sá de Miranda. Se teremos tambem de as chorar na nossa velhice? Esperemos que não, ou digamol-o, pelo menos, para não desanimar ninguem—para não desanimarmos tambem nós.

Junho de 1886.

Anthero de Quental.